A ponta do iceberg?

3 09 2008
No embalo da polêmica da surpreendente transferência estratosférica de Robinho para o Manchester City, um outro assunto é recorrente: Outro mecenas aporta na Inglaterra, o árabe Sulaiman Al Fahim. Seu sonho é fazer do City um dos seus “brinquedinhos” mais bem sucedidos, assim como Roman Abramovich faz com o Chelsea há mais de cinco temporadas. Através do grupo de investidores ADUG (Abu Dhabi United Group), Fahim promete atropelar a concorrência, prometendo mundos e fundos, chegando até mesmo a tencionar a contratação do maior ídolo do rival, Cristiano Ronaldo.

O processo de “crescimento” do Man City se iniciou na temporada passada com a aquisição de ações do clube pelo bilionário Thaksin Shinawatra, outro que queria notoriedade fora de seu país natal, a Tailândia. Investiu bom montante e viu a equipe vislumbrar uma vaga na Champions League desta temporada. Mas no fim, a irregularidade e inexperiência do elenco fez com que esse projeto meteórico caísse por terra. No entanto, essa nova injeção de capital pode trazer o clube para um projeto parecido com a aquisição do Chelsea. Abramovitch assumiu um time falido, de porte médio e longe da briga pelos principais títulos. Seguidos investimentos puseram o Chelsea no foco do futebol europeu, mesmo não tendo conquistado nenhuma Champions League. Os Blues bateram na trave quatro vezes (três semis e uma final), porém Abramovitch ainda não desistiu de sua meta. Com os Citizens, o processo promete se repetir. A aquisição de Robinho por 40 milhões de euros parece só o começo para que a equipe seja um “novo paraíso azul” e seduza os principais jogadores com seu quase inesgotável capital árabe, colocando a equipe na rota dos principais times da Inglaterra, inicialmente. Os incrédulos dirão: quem quer jogar no Manchester City? E quem queria jogar no Chelsea há seis anos atrás? Ou nos campeonatos de futebol do mundo árabe, que seduzem cada vez mais jogadores mais famosos e não tão acabados para o futebol?

Após muitos times da Premier League terem quebrado devido a bolha financeira ocorrida na década de 90 (que acometeria o Leeds United mais adiante), os times passaram a operar na bolsa de valores, atitude essa que atraiu muitos investidores estrangeiros de olho no potencial do futebol inglês. A aquisição de Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Liverpool, Portsmouth, Aston Villa e agora o City por mauricinhos aficcionados por futebol ou por grandes grupos de investimento mostrou isso. Como citou David Conn, em sua coluna no site do Guardian, os times parecem cada vez mais se exibir mostrando quem tem o dono mais rico ou mesmo quem traz o jogador mais badalado.

Não estou aqui defendendo o modelo de administração do Chelsea ou de qualquer outro clube que tenha o poder concentrado nas mãos daquele que assina os cheques, fórmula essa que comprovadamente traz enormes prejuízos financeiros ao clube, que aumenta suas despesas desproporcionalmente a renda recebida por conta de maior exposição na televisão, venda de produtos oficiais e de atletas. Essa elevada aquisição e seus planos a curto prazo poderá levar o futebol inglês a inflacionar ainda mais o mercado europeu, elevando os preços pagos pelo atletas atualmente, além da estrutura que o acompanha. Mas é inevitável não pensar que a rivalidade entre City e United poderá deixar de ser uma briga Davi-Golias para ser um embate de clubes cada vez mais semelhantes – pelo menos no tocante ao poderio financeiro e de suas origens e destinos.





De pedra a vidraça

1 09 2008
De algoz a vítima. O Real Madrid experimenta a condição de ser o “marido traído” de uma novela que circula diariamente nos sensacionalistas tablóides espanhóis e ingleses: a possível transferência de Robinho ao Chelsea. Logo o Real, que forçou ao extremo a transferência de Cristiano Ronaldo e iria usar o próprio Robinho como moeda de troca. Se a diretoria merengue pregou tanto a tal liberdade para jogar onde quiser – inclusive apoiados pelas declarações infelizes de Joseph Blatter, presidente da FIFA – porque não se sensibilizar com o caso do brasileiro, o qual ainda está longe do bom futebol dos tempos de Santos e alguns momentos de Seleção Brasileira, visivelmente irritado com sua situação em Madrid?

O Real Madrid vê a janela de transferências se fechar nessa segunda-feira após acumular fracassos nas contratações de Santi Cazorla e David Villa (recentemente campeões europeus pela Espanha), além de Ronaldo, a menina dos olhos de Schuster e da diretoria. E uma eventual saída de Robinho enfraqueceria ainda mais o elenco, que trouxe apenas o meia holandês Rafael Van der Vaart para esta temporada. Mas vale a pena deixar um jogador visivelmente insatisfeito no elenco merengue – inclusive com críticas veementes de alguns de seus companheiros, como Robben?

Apesar de seu empresário Wagner Ribeiro – que tem grande parte nesse desejo de Robinho deixar Madrid rumo à Londres, assim como já o fez na época de Santos – o atacante brasileiro não deixa de ter suas razões. Relegado como moeda de troca e última opção, não há jogador que ficasse satisfeito, ainda mais com um empresário procurando clubes como Ribeiro sabe fazer bem. “Disse ao presidente, ao diretor esportivo e ao treinador que quero sair. Não vou me recusar a jogar, caso fique. Mas é responsabilidade de Schuster se ele quiser manter um jogador insatisfeito” disse o camisa dez merengue durante coletiva neste domingo (31/08), visivelmente chutando o balde com o impasse criado. O Chelsea está a espreita esperando a novela acabar, sem nada valoroso a perder. Segundo Robinho, ele até ficaria “um ano sem jogar” mostrando a sua insatisfação. Claro que ele não fará tamanha estupidez, tanto porque minaria seu espaço na Seleção e iria colidir com os interesses do Real, que investiu nele e lhe paga rigorosamente em dia.

Já a diretoria do clube mandou o atacante pagar a multa de cerca de 150 milhões de euros, algo impossível de se acontecer. Mas anteriormente, no caso da malfadada transferência de Ronaldo, o Real sequer cogitou essa possibilidade da rescisão unilateral. Como diz a cantora Pitty em sua canção “Teto de Vidro”: “quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra…” E sabemos que o teto merengue não é feito de vidro, mas sim de cristal…