Ainda falta algo

25 08 2008
Marta e Cristiane lamentam mais um vice-campeonato olímpico: Mesmo mostrando melhor futebol, o detalhe novamente foi o vilão da equipe canarinho.
O Brasil decepcionou-se com algumas modalidades nas quais era tido como favorito em Pequim, como o vôlei de praia, de quadra masculino, futebol masculino e com o ginasta Diego Hypólito, por exemplo. O futebol feminino olímpico, apesar de dividir o favoritismo com os EUA e a Alemanha, também causou uma pontinha de decepção, principalmente após a grande semifinal contra as alemãs, até outrora algozes da seleção nas diversas competições da modalidade, culminando com a perda da final ano passado, nesta mesma China durante a Copa do Mundo de 2007. Disse uma pontinha, porque a meu ver, ainda falta algo para que essa seleção seja ratificada como a melhor do mundo.

Primeiro de tudo, falta equilíbrio emocional. Mas como cobrar equilíbrio emocional de profissionais que chegaram ao Brasil sem saber de seu futuro imediato? A goleira Bárbara, por exemplo, jogou seis meses sem receber aqui no Brasil e espera propostas para seguir vivendo da profissão que escolheu. O mesmo problema afeta a muitas jogadoras desse elenco que não alcançaram o status midiático de uma Marta, Cristiane ou Daniela Alves. Tanto no Mundial, quanto nos Jogos Olímpicos, o Brasil fez grandes partidas nas semifinais (4-0 contra os EUA em 2007 e 4-1 contra a Alemanha em 2008). Mas chegando à final, a mesma sina: o Brasil não ganhou por detalhes e a falta de sangue-frio. A afobação na organização e na conclusão das jogadas mostra que quando as coisas estão difíceis, falta ao Brasil se apegar mais a um padrão tático. Isso é visível quando Marta tenta resolver tudo sozinha, ou mesmo a atacante Cristiane, pois elas sentem que a responsabilidade pelo fracasso de mais uma jornada recairá sobre seus ombros.

Nisso, equipes como a própria Alemanha e os EUA mostram algo que falta ao Brasil: o conjunto. O Brasil possui as melhores atletas, individualmente falando - já que o Brasil tem três jogadoras entre as dez melhores do mundo – mas ainda peca pela falta de um elenco à altura. Isso se deve a falta de atividades às jogadoras brasileiras durante um ano inteiro, assim como ocorre com a temporada masculina. Enquanto nos EUA as atletas são incentivadas a jogar desde o ginásio até a universidade, passando por organizadíssimos campeonatos nacionais, na Alemanha, além da existência de uma boa liga nacional, as jogadoras ainda disputam a UEFA Women´s Cup, uma espécie Champions League do futebol feminino. Na última final, a alemã Prinz (Frankfurt) – maior artilheira da história dos jogos olímpicos ao lado de Cristiane, com 10 gols – novamente levou a melhor sobre Marta (UMEA) nas finais da competição, em maio. Torneios de nível alto como estes citados ajudam a dar bom ritmo de jogo às atletas. Enquanto isso, em terras tupiniquins, a Copa do Brasil da categoria não rendeu bons frutos. O motivo não surpreende: o atraso no repasse de recursos aos clubes. E o futuro da competição continua incerto.

Mesmo com todas as dificuldades, o Brasil evoluiu bastante. Há doze anos, quando conquistava a quarta colocação olímpica em Atlanta – após a derrota para a Noruega – o Brasil saiu de um pelotão intermediário, o qual incluía seleções como Suécia, Noruega e China, para figurar pelo menos entre as três melhores, pouca coisa atrás de Alemanha e EUA.

As promessas continuam sendo feitas. Alguns já taxam (injustamente, na minha visão) a seleção como amarelona. E em meio a todas as dificuldades, o Brasil segue lutando. Algumas jogadoras dessa geração de prata estão se despedindo, como Formiga e Tânia Maranhão. E não há campeonatos para que o descobrimento de novos talentos que continuem a alavancar esse crescimento. Infelizmente, se algo de concreto não for feito já, todo esse trabalho pode ficar apenas como belas imagens de arquivo, daquela seleção que poderá ser conhecida injustamente como a seleção do “quase”. Mesmo sem condições igualitárias de trabalho do que suas principais rivais.





Vingança e caça às bruxas

20 08 2008
Doce vingança: Argentina deixa Brasil na espera pelo título olímpico por mais quatro anos.
A Era Dunga vai conhecendo o seu fundo do poço. Após os jogos pífios pelas Eliminatórias Sul-Americanas – que deixaram o Brasil com apenas nove pontos em seis jogos – a Seleção falhou na única vez em que foi exigida pra valer: não fez sombra frente a excelente Argentina. Porque antes de mais nada, há de se exaltar que havia uma excelente equipe, de futuros valores como Garay, Mascherano, Agüero e Messi, os quais podem futuramente tirar a Argentina da fila de quase 25 anos por uma Copa do Mundo. E que jogaram de acordo com as expectativas que os cercaram. Fora a motivação extra dos hermanos, por conta de recentes goleadas e a perda da Copa América sob circunstâncias estranhas. Mesmo jogando o melhor futebol naquela oportunidade, simplesmente o time desandou. Assim como o Brasil fez hoje, no Estádio dos Trabalhadores, em Pequim.

Posto isso, vamos aos fatos: Dunga não tem condições de seguir a frente do comando da Seleção. Não só por ele ser totalmente inexperiente e incompetente taticamente. Mas por ele não ter respaldo de ninguém. Torcedores, imprensa e até a CBF – que inicia um gradual processo de fritura – não acreditam que ele possa desenvolver um trabalho razoável. Aliado a isso, o fato da turra do comandante do escrete canarinho. A insistência em jogadores ultrapassados como Josué, Mineiro, Gilberto(s) e Sóbis chega a irritar. Falta um espírito de elenco, falta disciplina tática e falta bom senso em sua relação com os jogadores, como nos episódios passados com Ronaldinho, Kaká e Robinho, principais jogadores de sua era à frente do Brasil.

Apesar de achar que ele não convocou mal o elenco que está em Pequim (salvo algumas exceções), claramente faltou pôr em prática o tão falado “projeto olímpico”. Dunga poderia ter jogado os últimos amistosos contra times decentes para ir encorpando o elenco e testando mais opções, como Léo (Grêmio) e Guilherme (Cruzeiro), por exemplo. A preparação na Ásia – que apesar de todos os problemas, foi de um tempo razoável – poderia ser a fase final de algo planejado previamente.

Quanto aos jogadores, algumas ponderações: apesar de Ronaldinho não ter correspondido, ele terá nova chance no Milan. Com uma preparação adequada e com ritmo forte de competição, ele ainda poderá ser útil. O mesmo para o garoto Pato. Responsabilizado precocemente em ser o fazedor de gols, ele foi mais uma vítima do esquema de Dunga, que isola os atacantes e os deixa trombando com a zagueirada. Já foi dessa forma com Wagner Love e Luís Fabiano, por exemplo. Provaram que são futuros valores para a equipe atletas como Marcelo, Lucas, Hernanes e Thiago Neves, cujo talento pode dar uma gama de opções ao time futuramente, nas Eliminatórias da Copa.

Infelizmente, Dunga não cairá tão já. Os jogos em setembro contra o Chile (fora, 06/09) e Bolívia (casa, 09/09) serão pontuais quanto ao seu futuro. Dependendo das andanças, o negócio pode ficar feio em Santiago mesmo, em uma (não tão) eventual derrota. O que não se pode é caçar as bruxas erradas. Há uma – ou duas, mas esta última inalcançável, infelizmente – bruxa prestes a queimar na fogueira das vaidades do futebol brasileiro.

Enquanto isso, em Pequim mesmo, está uma outra seleção que a CBF nem liga muito e, mesmo assim, vem correspondendo à altura. Será que é por conta disso que o técnico Jorge Barcellos consegue tirar o melhor de suas atletas e sua camisa 10 é 10, de fato? O primeiro ouro do futebol brasileiro pode vir, sim. Mas não como Ricardo Teixeira imaginava.





Espírito (de porco) Olímpico

25 07 2008
Além do pouco tempo de preparação, o Brasil tem outra preocupação para Pequim: o endurecimento da postura dos clubes na liberação de atletas.

A exemplo da novela para liberação de jogadores para a Copa América e a Copa Africana de Nações, os clubes europeus não querem ceder seus jogadores – até aqueles com menos de 23 anos – às seleções sul-americanas. Especificamente, Brasil e Argentina – que dão muito mais importância ao título dos jogos olímpicos que os europeus e que já haviam sido podados os seus principais atletas, os mais experientes, para a disputa das Olimpíadas.

Novamente no meio do fogo cruzado, a FIFA, entidade máxima do futebol. Tal qual em outros episódios – como o dos jogos na altitude, por exemplo – a FIFA não tem um estatuto ou algo do tipo definindo a situação. Historicamente, após acordo com o COI em 1992, as seleções levariam um elenco sub-23 e dentre eles, contar com até três jogadores além do limite etário pré-estabelecido. No entanto, com o calendário cada vez mais apertado e após uma Eurocopa que tomou quase um mês deste 2008, os clubes desejam se preparar adequadamente para outra desgastante temporada e com os jogadores concentrados em Pequim, isso demoraria mais a acontecer. Somado a esse fato, os jogos olímpicos não constam no calendário oficial da FIFA. Mesmo assim, Joseph Blatter apelou ao “espírito olímpico” dos clubes e determinou que “criar obstáculos à participação de jogadores com menos de 23 anos nos Jogos poderia ser interpretado como um atentado ao espírito olímpico, já que esses jogadores formam o núcleo das equipes que participam do torneio”. Porém, não estipulou nenhum tipo de determinação aos desobedientes ou mesmo incluir as olimpíadas no calendário oficial, por um motivo muito simples: A FIFA sempre deixou claro que não deseja valorizar o torneio olímpico de futebol, temendo que este fosse confrontar a menina dos olhos da entidade, a Copa do Mundo de Futebol.

De outro lado, os clubes estão se apoiando nas brechas dadas por Blatter. Especificamente nessa briga, os clubes diretamente envolvidos – Barcelona (Messi), Werder Bremen (Diego) e Schalke 04 (Rafinha) – estão apoiados pelas respectivas federações nacionais e pela Associação Européia de Clubes (ECA, substituta do G-14). Tanto estão amparados que os alemães estão dispostos a levar o caso às últimas conseqüências, ou seja, julgamento no Tribunal Arbitral do Esporte. Tudo isso a pouco mais de duas semanas do início do torneio.

Enquanto isso, os jogadores não sabem o que vai acontecer. Os clubes ameaçam com a recisão de seus contratos (o que racionalmente, jamais aconteceria) ou dão um “jeitinho”, como no caso Robinho-Real Madrid, que está contundido em uma situação não esclarecida e por conta disso, está fora dos Jogos. Contudo, o camisa 10 está “se tratando” na pré-temporada dos merengues. O choque de interesses é notório, mas não é aberto. Se a FIFA não deseja um torneio que possa “rivalizar” com a Copa, deveria estabelecer a ida de jogadores juniores a Pequim, ou mesmo ponderar a retirada do futebol dos Jogos, já que o futebol não pode – e não é – mais importante a Olimpíada. Falta uma resolução definida e peitar os clubes, já que ela é a manda-chuva no mundo do futebol. E apesar do metodismo, os clubes estão exercendo seu direito de investimento sobre os jogadores, apoiando-se estritamente nas falhas da entidade máxima do futebol. Coisas que envolvem dinheiro e interesses devem ser bem claras e especificadas. Ou não há espírito olímpico que valha a disputa dos Jogos Olímpicos.





Os eleitos: para salvar ou derrubar Dunga?

7 07 2008
Mesmo em má fase e convocado por Ricardo Teixeira, Ronaldinho é um dos principais jogadores do elenco canarinho na busca pelo ouro inédito.

Hoje, Dunga divulgou a lista dos 18 jogadores que vão à Pequim para a tentativa de conquista da inédita medalha de ouro. E para muitos – incluindo este blogueiro que vos escreve – jogando para salvar a pele de Dunga, em caso de êxito nas Olimpíadas. Muitos torcerão pela fracasso da Seleção, porque não agüentam vê-lo na seleção nem pintado de ouro. Mesmo o ouro de Pequim.
Falta de tempo, a não-liberação dos principais jogadores, ausência um planejamento prévio e, como de praxe, com larga preferência pelos “estrangeiros” – só cinco dos 18 atua no Brasil – fazem com que o Brasil saia cheio de desconfianças e sem grandes expectativas, ao contrário do que ocorreu na Copa de 2006. Só que os recentes resultados do Brasil nas Eliminatórias e a falta de um futebol digno de Seleção Brasileira fazem com que o processo de fritura de Dunga se acentue cada vez mais. Mas caso ocorra o título – e Teixeiradas à parte – ficará difícil tirar o gaúcho carrancudo do cargo. Mesmo tendo de engolir a convocação de Ronaldinho pelo próprio Ricardo Teixeira, o craque dentuço terá a ingrata missão de ser um dos homens de confiança de Dunga, ao lado de Robinho (intocável na era Dunga) e o zagueiro-revelação Thiago Silva, de ótima temporada pelo Fluminense até aqui.

Goleiros

Dunga deve ter pensado em chamar alguém acima dos 23 anos para a posição. Mas a convocação justa de Diego Alves, após excelente temporada pelo Almería, e de Renan, do Inter, se mostraram acertadas. Apesar do goleiro do Inter ter sido chamado mais devido a falta de opções elegíveis no setor do que pela sua própria capacidade técnica, que é boa, mas não suficiente para firma-lo no Internacional, onde divide a titularidade com o contestável Clemer. Talvez Dunga devesse ter queimado aí seu cartucho de jogador acima de 23 anos, mesmo não podendo contar com Júlio César, seu favorito.

Defensores

Mesmo encostado no Bayern, o ótimo Breno pode reeditar dupla de zaga com o “experiente” Alex Silva. O “Pirulito” tem bastante bagagem pelo São Paulo e deve ser o titular absoluto. A ponto de sair do Flu na próxima janela de transferências para a Europa, Thiago Silva será exposto na vitrine da Seleção. Boas atuações podem encurtar as distâncias até o futebol do Velho Continente. Foi o melhor de sua posição em toda a Libertadores, mesmo com as más atuações das finais contra a LDU. Apesar do desejo de Dunga em contar com um nome mais experiente no setor, os convocados têm condições de segurar o rojão na zaga canarinho.

Nas alas, as más atuações de Richarlyson este ano lhe custaram as vagas. A dele no elenco e uma para Dunga, que contava com o versátil ala/volante para ganhar uma posição em outro setor. Dos três, Rafinha foi o de temporada mais regular pelo Schalke e apostaria na titularidade dele. No entanto, Ilsinho já provou ter capacidades e ser o lateral titular, mas o seu estilo do jogo demasiadamente ofensivo pese para a escolha. Como única opção na esquerda, Marcelo está tranqüilo.

Meio-campistas

O setor mais promissor do Brasil, na minha ótica. Dunga tem a opção de montar um meio campo de volantes marcadores e habilidosos, como Hernanes e Lucas. Anderson pode ajudar no setor, pois no Manchester United soube ajudar a compor a marcação, inteligentemente descoberto por Ferguson. Ele vem de trás, mas não como um volante marcador, e sim como um jogador mais solidário, porém com capacidade de armar jogadas com extrema habilidade e velocidade. Já em relação a Diego e Ronaldinho, uma grande incógnita. O primeiro arrebenta no Werder, mas ainda deve uma grande partida com a camisa canarinho. O segundo vê Pequim como uma grande motivação para o reinício de sua carreira, desgastada na última temporada. Não questiono sua capacidade técnica, mas achei errada a aposta nele como jogador para as Olimpíadas. Ele primeiro precisa definir seu futuro e se recuperar em seu futuro clube para depois, voltar à Seleção. Já Thiago Neves, apesar das boas apresentações nas finais da Libertadores, não é o jogador vigoroso que encantou o Brasil no ano passado, mas pode vir a ser uma boa opção, inicialmente.

Atacantes

Dunga apostará suas fichas na dupla Robinho-Pato. O atacante do Real Madrid é homem de confiança do técnico, mas não está conseguindo render o que pode nas últimas partidas pelo Brasil. Pato fez bom papel em alguns amistosos e pode estourar. O ex-corinthiano Jô, recém-transferido para o Manchester City, fez bom papel na gélida Rússia. Tornou-se um dos principais – senão o principal – jogador do CSKA dos últimos dois anos e uma convocação sua para a Seleção de novos não é nada injusta. Já Rafael Sóbis não conseguiu se firmar na Europa após a grande campanha pelo Inter, no Brasileiro de 2005 e na Libertadores de 2006. Mas trata-se de um queridinho de Dunga que aparecerá como a primeira opção no banco.

Apesar de ter mais motivos de criticar o planejamento do que os convocados em si, não posso deixar de citar a ausência de dois jogadores que não podiam estar de fora de uma Seleção sub-23: o volante Charles e o atacante Guilherme, ambos do Cruzeiro e que acrescentariam muito a este elenco. Menções ao zagueiro Léo, do Grêmio, que vem fazendo bom papel no Brasileirão até aqui, inclusive sendo o Bola de Prata em sua posição, em avaliação feita pela Revista Placar e ao zagueiro Henrique, recém-vendido ao Barcelona, deixados de lado.

Apenas dois jogos amistosos, poucos dias de preparação até Pequim e um técnico teimoso pressionado no cargo. Será o Brasil tão favorito assim – mesmo com uma seleção reconhecidamente técnica – frente as seleções africanas, sempre perigosas e a uma Argentina que quer o bicampeonato olímpico a todo custo?

Convocados:
Goleiros: Diego Alves (Almería/ESP) e Renan (Internacional)
Laterais: Ilsinho (Shakhtar Donetsk/UCR), Rafinha (Schalke 04/ALE) e Marcelo (Real Madrid/ESP)
Zagueiros: Alex Silva (São Paulo), Breno (Bayern de Munique/ALE) e Thiago Silva (Fluminense)
Meio-campistas: Anderson (Manchester United/ING), Diego (Werder Bremen/ALE), Hernanes (São Paulo), Lucas (Liverpool/ING), Ronaldinho Gaúcho (Barcelona/ESP) e Thiago Neves (Fluminense).
Atacantes: Alexandre Pato (Milan/ITA), Jô (Manchester City/ING), Rafael Sóbis (Betis/ESP) e Robinho (Real Madrid/ESP).