Aposta na renovação

4 06 2009
Depois de quase oito anos à frente do Milan, Carlo Ancelotti, enfim, deixa o comando do Milan. Mesmo reconhecendo sua trajetória de sucesso pelo rossoneri – duas Champions League, um scudetto, uma Copa da Itália, duas Supercopas da UEFA e um Mundial de Clubes da FIFA – Ancelotti já vinha tendo seus métodos contestados há algum tempo. E com a discreta participação do Milan nas últimas duas temporadas – quinto no Calcio 2007/08 e vice em 2008/09 – o respaldo dado ao seu trabalho acabou e o técnico italiano terá novo desafio no instável Chelsea.

A escolha de Leonardo como novo técnico do Milan não deixou de ser uma pitada de ousadia. Apesar de conhecer bem o elenco e já possuir bom trânsito entre os jogadores e Silvio Berlusconi, a aposta no brasileiro não deixa de ter inspiração no ótimo trabalho de Guardiola à frente do Barcelona: triplete europeu do ex-jogador blaugrana em seu primeiro desafio como técnico de futebol. Além disso, a aposta em Leonardo foi feita mesmo com bons nomes disponíveis no mercado europeu, tais como Felipão, Rijkaard, Mancini, Juande Ramos e Klinsmann, entre outros.

Na coletiva de sua apresentação oficial, entre outras coisas, exaltou o futebol ofensivo e bem jogado, preceitos que tentará implantar no Milan: “Eu me inspiro no jogo do Brasil de Telê Santana. Admiro muito esse time de 1982, rápido e com jogadores que não tinham funções fixas e com dois laterais muito ofensivos”, afirmou o agora treinador Leonardo. Mas a tarefa é árdua. O envelhecido elenco rossoneri clama há tempos por uma renovação, principalmente na parte defensiva. A aposentadoria de Maldini deve abrir espaço para uma limpa no setor, principalmente com o aproveitamento de Thiago Silva. Outros desafios de Léo serão a recuperação do futebol de Ronaldinho, relegado ao banco durante maior parte desta temporada que acabou, e a reposição da iminente saída de Kaká ao Real Madrid, praticamente cravada pela imprensa européia. Além da aposta em Thiago Silva e Ronaldinho, Leonardo certamente se utilizará do talento de Alexandre Pato, um dos poucos acertos de Ancelotti no Milan dos últimos anos.

Enquanto isso, no Santiago Bernabéu, a aposta é em Manuel Pellegrini. O técnico chileno, com passagens pelo futebol argentino e responsável pelo upgrade do então pequenino Villarreal no cenário espanhol e europeu em um período de quatro anos, chega a um Real Madrid que promete retomar a era galáctica, com o retorno de Florentino Pérez à presidência merengue. Kaká deve ser apenas o primeiro reforço de um clube que parece não medir esforços para acabar com o “ostracismo” merengue e a adoração ao futebol e elenco do arqui-rival Barcelona. Resta saber como o Inginero responderá ao desafio de comandar uma equipe de nível mundial pela primeira vez, tarefa na qual os promissores Bernd Schüster e Juande Ramos não conseguiram realizar a frente de um gigante como o Real Madrid.





Fim da linha?

1 03 2009
Carlo Ancelotti nunca foi unanimidade entre torcedores e imprensa do mundo do futebol, mesmo com um currículo de respeito à frente do Milan: um Campeonato Italiano (2003/04), uma Copa da Itália (2002/03), uma Supercopa da Itália (2003/04), duas Champions League (2002/03 e 2006/07) e duas Supercopas Européias (2003 e 2007). Os mais críticos alegavam que faltava um “algo” a mais na equipe, que por vezes primava pelo excesso de cautela defensiva – o que certamente custou o título da Champions 2004/05, perdido para o Liverpool após ter conquistado uma vantagem de 3-0 – para citar o exemplo mais clássico e conhecido.

Os recém-completados sete anos à frente do Milan – estreou em novembro de 2001 – podem estar chegando ao fim, assim como a já esgotada paciência do torcedor rossonero. O Milan conseguiu ser eliminado em casa para o Werder Bremen após conquistar vantagem de 2-0 no primeiro tempo. Em dez minutos, os dois gols de Pizarro decretaram o fim da Copa da UEFA frente a um time que, novamente, pecou pela burocracia e falta de criatividade. Sem Kaká e Ronaldinho – ambos contundidos – o experiente time do Milan não deu conta do recado, vivendo apenas do bom futebol do jovem Alexandre Pato. E para ser justo, uma aposta lapidada por Ancelotti, em um de seus poucos acertos nos últimos tempos.Eliminado da Champions 2007/08 – a última que disputou – pelo jovem Arsenal em pleno San Siro, quinto colocado do Campeonato Italiano da mesma temporada após perder a vaga para a Fiorentina, Ancelotti balançou, mas não caiu. Ainda assim, o Milan trouxe poucos reforços de peso – pra valer mesmo, apenas Ronaldinho Gaúcho – e repetiu os erros dos últimos fracassos: muita cautela e pouca dinâmica. Mesmo com o excesso de jogadores experientes, novamente faltaram nervos para a equipe comandada por Ancelotti, eliminada nos dezesseis avos de final da segunda competição intercontinental em importância na Europa, na qual o Milan pintou como um dos grandes favoritos.Onze pontos atrás da Inter, o terceiro lugar neste Calcio mostra que o Milan brigará mesmo por uma vaga na próxima Champions em pé de igualdade com Fiorentina e Roma – que faz um campeonato de recuperação e já está a cinco pontos dos rossoneros. Muito pouco para o segundo maior campeão Italiano e da Champions League, que ultimamente só conseguiu picos de aparição na imprensa por tentar recuperar jogadores como Ronaldo, Ronaldinho e Beckham. Com Maldini se aposentando ao final desta temporada e a novela interminável da compra de Beckham, já passou da hora do manda-chuva Silvio Berlusconi fazer uma faxina entre os mais experientes do elenco – especialmente entre goleiros e defensores, ponto crítico do time – terminando no comando na equipe, onde é claro que o treinador italiano precisa respirar novos ares, como já foi dito no texto que escrevi no blog Opinião FC à época da eliminação do Milan pelo Arsenal. Renovar não é apenas preciso. É necessário, para que o Milan possa voltar às cabeças novamente.





Reforço nas passarelas

26 12 2008
A chegada de David Beckham ao Milan nesta última semana foi cercada de alarde, flashes e diversos patrocínios na coletiva de imprensa italiana. Mas será que para a equipe rossonera é um bom reforço? Cravo de antemão que não. Becks venderá muito jornal, camisa e produtos adjacentes na capital da moda, Milão. Mas futebol mesmo que é bom, parece que não será de grande valia ao ameaçado técnico Carlo Ancelotti.

A estadia de apenas dois meses – tempo do recesso da MLS, onde atua pelo Los Angeles Galaxy – não é um tempo razoável, quando tratamos de Europa. O campeonato Italiano e a Copa da UEFA – principais competições que a equipe disputa – acabam em maio, sendo que o empréstimo do camisa 32 termina no início de março. É certo que o Milan tentará uma prorrogação, mas o Galaxy não parece disposto a entregar seu investimento e perdê-lo na MLS, onde apenas é um time mediano.Além disso, Carlo Ancelotti é um conhecido retranqueiro. Para encaixar Beckham no time, ele certamente teria de abrir mão de algum homem de frente. Com a contusão de Gattuso – que ficará fora dos campos por seis meses – o técnico não parece acenar com uma mudança no trio brasileiro Ronaldinho-Kaká-Pato, o grande trunfo da equipe nesta temporada. Pirlo desenvolve função tática importante e normalmente joga, assim como Seedorf. Flamini, Emerson e Ambrosini estavam se alternando na cabeça de área. Se Beckham fosse encaixado como titular, ele teria que atuar como uma espécie de segundo volante, o que certamente não é a praia dele. Mesmo na boa fase, o inglês sempre atuou apenas pela faixa direita do campo, contribuindo com passes, lançamentos longos e sendo letal na bola parada.

Por isso, é reforço fora de hora. O Milan vive problemas graves no miolo de zaga, onde o veterano Maldini precisa de zagueiros seguros e de qualidade para atuar ao lado dele. No gol, ninguém convence mais. Abbiati não compromete, mas não é excepcional, enquanto que Dida e Kalac perderam espaço por não passarem mais tranqüilidade à zaga. A goleada de 5-1 sobre a Udinese neste último domingo não apagou ainda a péssima jornada da zaga rossonera, dizimada na semana anterior quando confrontou uma equipe mais ofensiva e qualificada, como a Juventus de Del Piero e Amauri.

Não que Beckham seja um mau jogador. Não é nenhum fora de série, mas nunca comprometeu e até foi importante no período em que atuou pelo Manchester United e pelo English Team. No entanto, com o fracasso no time galáctico do Real Madrid, ele abriu mão do futebol competitivo e foi ganhar os dólares em Hollywood, no Galaxy, onde foi só notícia nos factóides de fofoca. Chega ao Milan para engrossar a média de idade do time (o inglês está com 33 anos) que já é a maior entre as grandes potências européias. Para um time que depende em grande parte de Kaká, e agora com Ronaldinho e Pato se estabilizando na equipe, é notório que a equipe precisa ser renovada na parte defensiva. Além disso, Beckham parece mais interessado nos flashes de Milão do que nos holofotes do San Siro. Ou seja, um grande reforço para as passarelas milanesas.





Il ritorno di Sheva

26 08 2008
Após passagem apagada no Chelsea, Shevchenko tenta reeditar sua melhor fase na volta ao Milan, do qual ainda é ídolo.

“Estou aqui pelo desafio e pela excitação de jogar na Premiership. Vou de um grande clube para outro gigante, até porque me juntarei a uma equipa de campeões. Existe um momento certo para as transferências e julgo que cheguei aqui na hora perfeita”. Foi assim que Shevchenko definiu o momento de sua transferência estratosférica ao Chelsea de Roman Abramovitch. Os valores giravam em torno de 45 milhões de euros pelo ucraniano de 29 anos, à epoca. Sheva iria disputar a Copa do Mundo da Alemanha com a cabeça tranquila, pois sua transferência havia sido concretizada a poucos dias do torneio mundial. Com a Ucrânia obtendo a classificação para a fase seguinte – em um grupo fácil com Espanha, Arábia Saudita e Tunísia – Shevchenko falhou na disputa de pênaltis contra a Suíça e viu o time dar adeus a sua primeira Copa nas oitavas. Apenas dois gols e um futebol não muito vistoso não desanimaram os torcedores dos Blues, que sonhavam com um Sheva liderando a equipe com seus gols, arrancadas fulminantes e excelente visão de jogo, rumo ao topo da Europa.

Dois anos depois dessa mudança decisiva de ares, o ucraniano não havia emplacado o futebol dos tempos de Milan e Dínamo de Kiev na parte azul de Londres: Foram apenas 75 jogos no intervalo de dois anos e modestos 22 gols marcados. Muito pouco frente ao seu desempenho no Dínamo (166jogos/94gols) e no Milan (296jogos/173gols). Por isso, ele voltou novamente a Milão, emprestado. A torcida rossonera fez festa, claro. “Trouxemos de volta para casa o jogador que, nos últimos 50 anos, mais fez gols com nossa camisa”, afirmava um eufórico Adriano Galliani, vice-presidente do Milan. Berlusconi já vislumbra uma dupla de ataque com Pato e a euforia é grande também entre os tiffosi rossoneri.

Esse mesmo Shevchenko que surgiu com destaque aos olhos europeus exatamente há 10 anos atrás, quando o Dínamo de Kiev fez surpreendente campanha na Champions League daquela temporada, parando nas semifinais contra o poderoso Bayern. A dupla infernal formada por Sheva e Serhiy Rebrov marcou 19 dos 27 gols da excelente campanha dos ucranianos. Rebrov, no entanto, tornou-se mais um cigano da bola e não vingou, enquanto Shevchenko foi fazer história no Milan.

O Milan – assim como já fez com Ronaldo e Ronaldinho – contrata o passado do ucraniano, que brilhou com a camisa 7 do clube entre 1999 e 2006. Os torcedores não esquecem da Champions League de 2002/03, onde Sheva teve participação fundamental na fase final da competição, marcando gols decisivos nas quartas, contra o Ajax, e nas semis contra a Inter, eterna rival. Também coube a ele converter o pênalti decisivo contra a Juventus, na grande final em Old Trafford. Ainda conquistou mais uma Liga Italiana, uma Copa Itália, uma Supercopa Italiana e uma Supercopa Européia, marcando com muitos gols e títulos uma trajetória vencedora no Calcio. É o terceiro maior artilheiro da história Champions, com 56 gols, um atrás de Nistelrooy e a cinco de Raúl.

Além da forte química existente entre jogador, clube e torcida, o Milan vem se mostrando um “acolhedor” de jogadores mais experientes nos últimos anos, ao contrário do que faz o Arsenal, por exemplo. Jogadores como Seedorf e Inzaghi – fora os velhos conhecidos do clube – vieram e deram contribuição importante nas conquistas recentes da equipe. Com 31 anos e algum tempo de bom futebol pela frente, Sheva pode dar ainda mais ao Milan. Ambos vieram de um período difícil: enquanto o Milan ficou fora da Champions 2008/09, Shevchenko jogou apenas 24 partidas em 2007/08, muitas delas começando como reserva. Como na canção, dizem que nossa casa é onde nosso coração está. E futebolisticamente falando, não haveria melhor abrigo para Sheva do que as cores rubro-negras de Milão.





Mais do mesmo, Gaúcho?

15 07 2008
Com pompa, Ronaldinho é anunciado como reforço no site oficial do Milan.


Mesmo com este anúncio sendo previsto há tempos pelo Milan e toda a imprensa esportiva nacional e internacional, não deixa de ter um tom irônico: O Milan tentará recuperar Ronaldo para o futebol. Não o Nazário, ou Fenômeno, mas sim o Assis, ou Ronaldinho Gaúcho. Situações semelhantes em alguns aspectos, tais como as letras garrafais e douradas na página principal do site rossonero; novelas intermináveis e mudança da Espanha para o San Siro; muito tempo parados e vendidos abaixo do preço pelo qual foram adquiridos, por conta das más atuações e a consequente reserva. E finalmente, uma chance de recomeçar após o fiasco da Copa do Mundo de 2006, ponto comum da recente má fase de ambos.

Nos capítulos da novela Fenômeno, um começo gradual, porém animador. Depois, a contusão grave e por fim, o desânimo para começar novamente, o que refletiu diretamente nas confusões em sua vida privada, amplamente noticiadas pela imprensa. Já Ronaldinho, é uma incógnita. Ele atravessa um período onde comprovadamente a maioria dos craques atinge o seu auge de técnica e maturidade profissional e é acreditando nisso que o tiffosi rossonero e o torcedor brasileiro ainda confiam no seu potencial. E antes do desafio no Milan, uma chance de redenção: as Olimpíadas de Pequim. Sendo o mais experiente da Seleção, tem a missão de liderar o Brasil rumo a uma conquista inédita e ainda de quebra, salvar a cabeça de Dunga – mesmo a contragosto do técnico, ao menos neste início de preparação.

Era evidente que o meia necessitava de novos ares e que não sobreviveria ao turbulento processo de renovação do Barcelona. E o Milan é sempre uma ótima escolha, tanto pela sua ampla expressão no mundo futebolístico quanto no trato com os brasileiros, já que o clube e Carlo Ancelotti são admiradores declarados do futebol tupiniquim. E voltando lá atrás, no post sobre a chegada de Ronaldo ao Milan (31/01/2007), uso praticamente das mesmas palavras para o sucesso dele: “superar mais uma vez as críticas e a falta de velocidade de tempos passados, para que dessa maneira ele possa se impor novamente e trazer o pavor aos zagueiros. [...] conta com a técnica de sempre para brilhar com a camisa rossonera. Só depende da força de vontade dele.” E que o final dessa história no Milan seja diferente de seu xará, visivelmente em um momento obscuro e confuso de sua vitoriosa (nunca devemos esquecer disso) carreira.