Reflexos da crise

8 02 2009
Os efeitos da crise mundial também tiveram reflexos no rico futebol da Europa. O fechamento da janela de transferências de inverno mostrou cifras modestas em relação ao início da temporada, onde as dez maiores transferências não saíram por menos de 20 milhões de euros. Já nessa última janela de negociações, apenas duas transferências atingiram a casa de 20 milhões – Lassana Diarra e Klaas-Jan Huntelaar, ambos contratados pelo Real Madrid. Alguns grandes optaram pelos empréstimo sem desembolsar grandes cifras de bons jogadores, como fez o Chelsea com Quaresma e o Milan com Beckham.Além da perda de boa parte da receita das finanças dos donos de clube, como Abramovitch, alguns clubes da rica Premier League sofreram com desfalques nas finanças: o Manchester United não renovará o patrocínio de camisa com os americanos da AIG em 2010 – seguradora que está recebendo ajuda governamental por conta da crise – no valor de 15 milhões de euros por ano e o West Ham perdeu o patrocínio da XL Holidays no valor de seis milhões de euros, passando quase quatro meses sem patrocínio de camisa. Assinou com a asiática Sbobet, especializadas em apostas, por metade do patrocínio anterior. O Manchester United se abalou pouco por ter uma das marcas mais valiosas no futebol enquanto os Hammers tiveram que se desfazer de seu principal jogador, o galês Craig Bellamy, vendido ao City por 15 milhoões de euros. Além disso, o seu proprietário, o islandês Bjorgolfur Gudmundsson, colocou a equipe a venda, já que a Islândia foi um dos principais países afetados pela crise econômica, por se tratar de um país majoritariamente composto por bancos. Gudmundsson – um dos donos do Landisbank – perdeu muito capital e viu o banco em que invetia ações falir e colocou os Hammers à venda apenas dois anos depois de sua aquisição para minimizar os prejuízos.

Ainda com todo o cenário contrário, Tottenham e Manchester City investiram massivamente em reforços, já que ambos haviam investido muito no início da temporada, mas viveram às voltas com a zona de rebaixamento desta Premier League. Dos dez reforços mais caros do mercado de inverno, seis pertencem a dupla e oito são ingleses (os outros dois foram o Arsenal, com Arshavin e o West Ham, com Nsereko). Os Spurs desenbolsaram vultuosos 47 milhões de euros – repatriou Defoe e Robbie Keane e comprou o hondurenho Wilson Palacios junto ao Wigan – e o City trouxe Bellamy, Nigel de Jong, Given e Bridge, que custaram a bagatela de 57 milhões de euros, pouco mais da metade do valor que os Citizens ofereceram ao milanista Kaká para trocar a Itália pela Inglaterra, no que seria a maior transferência da história do futebol. Porém, o brasileiro não se seduziu com os dólares árabes do dono do City e ficou no Milan.

Recentemente, as cotas da Premier League foram renovadas por mais três temporadas. A inglesa BSkyB (cinco pacotes, 115 jogos) e a irlandesa Setanta (um pacote, 23 jogos) fecharam as exclusividades de transmitir a principal liga nacional da Europa por 2,04 bilhões de euros, valor pouco maior que a cota anterior, de 1,94 bilhões de euros. Além dos bilhões das TVdesse montante, a BBC inglesa garantiu sua parte da cota – que dá direito ao principal jogo da rodada, mais o resumo das outras partidas – por 188 milhões de euros. No entanto,a euforia pelo aumento das cifras foi podada devido a desvalorzação da libra esterlina – moeda corrente na Inglaterra – frente ao Euro, fato esse que freou algumas negociações e fará com que o aumento real na parcela repassada aos clubes – 56% do total somado ao respectivo desempenho dos clubes na liga – seja bem menor do que o esperado.

Mesmo com algumas limitações e extravagâncias, a crise pode evitar o estouro de uma nova “bolha financeira”, como a que acometeu o futebol europeu no início desta década, a qual teve no Leeds United sua vítima mais conhecida. Após chegar às semifinais da Champions League em 2000/01 contra o Valencia, os Whites quebraram devido aos altos investimentos no elenco – de nomes como Robbie Keane, Robinson, Alan Smith e Rio Ferdinand – e em apenas seis anos sairam dos holofotes europeus rumo à terceira divisão inglesa.

As dez maiores transferências da janela de inverno na Europa (segundo o site Transfermarkt):

Klaas-Jan Huntelaar – Ajax para o Real Madrid, 20.000.000 €

Lassana Diarra – Portsmouth para o Real Madrid, 20.000.000 €
Nigel de Jong – Hamburg para o Manchester City, 19.500.000 €
Robbie Keane – Liverpool para Tottenham Hotspur, 16.700.000 €
Andrey Arshavin – Zenit para o Arsenal, 16.500.000 €
Jermain Defoe – Porsmouth para o Tottenham Hotspur, 16.400.000 €
Craig Bellamy – West Ham para oManchester City, 15.500.000 €
Wilson Palacios – Wigan para o Tottenham Hotspur, 15.000.000 €
Wayne Bridge – Chelsea para o Manchester City, 13.000.000 €
Savio Nsereko – Brescia para o West Ham, 11.000.000 €




A ponta do iceberg?

3 09 2008
No embalo da polêmica da surpreendente transferência estratosférica de Robinho para o Manchester City, um outro assunto é recorrente: Outro mecenas aporta na Inglaterra, o árabe Sulaiman Al Fahim. Seu sonho é fazer do City um dos seus “brinquedinhos” mais bem sucedidos, assim como Roman Abramovich faz com o Chelsea há mais de cinco temporadas. Através do grupo de investidores ADUG (Abu Dhabi United Group), Fahim promete atropelar a concorrência, prometendo mundos e fundos, chegando até mesmo a tencionar a contratação do maior ídolo do rival, Cristiano Ronaldo.

O processo de “crescimento” do Man City se iniciou na temporada passada com a aquisição de ações do clube pelo bilionário Thaksin Shinawatra, outro que queria notoriedade fora de seu país natal, a Tailândia. Investiu bom montante e viu a equipe vislumbrar uma vaga na Champions League desta temporada. Mas no fim, a irregularidade e inexperiência do elenco fez com que esse projeto meteórico caísse por terra. No entanto, essa nova injeção de capital pode trazer o clube para um projeto parecido com a aquisição do Chelsea. Abramovitch assumiu um time falido, de porte médio e longe da briga pelos principais títulos. Seguidos investimentos puseram o Chelsea no foco do futebol europeu, mesmo não tendo conquistado nenhuma Champions League. Os Blues bateram na trave quatro vezes (três semis e uma final), porém Abramovitch ainda não desistiu de sua meta. Com os Citizens, o processo promete se repetir. A aquisição de Robinho por 40 milhões de euros parece só o começo para que a equipe seja um “novo paraíso azul” e seduza os principais jogadores com seu quase inesgotável capital árabe, colocando a equipe na rota dos principais times da Inglaterra, inicialmente. Os incrédulos dirão: quem quer jogar no Manchester City? E quem queria jogar no Chelsea há seis anos atrás? Ou nos campeonatos de futebol do mundo árabe, que seduzem cada vez mais jogadores mais famosos e não tão acabados para o futebol?

Após muitos times da Premier League terem quebrado devido a bolha financeira ocorrida na década de 90 (que acometeria o Leeds United mais adiante), os times passaram a operar na bolsa de valores, atitude essa que atraiu muitos investidores estrangeiros de olho no potencial do futebol inglês. A aquisição de Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Liverpool, Portsmouth, Aston Villa e agora o City por mauricinhos aficcionados por futebol ou por grandes grupos de investimento mostrou isso. Como citou David Conn, em sua coluna no site do Guardian, os times parecem cada vez mais se exibir mostrando quem tem o dono mais rico ou mesmo quem traz o jogador mais badalado.

Não estou aqui defendendo o modelo de administração do Chelsea ou de qualquer outro clube que tenha o poder concentrado nas mãos daquele que assina os cheques, fórmula essa que comprovadamente traz enormes prejuízos financeiros ao clube, que aumenta suas despesas desproporcionalmente a renda recebida por conta de maior exposição na televisão, venda de produtos oficiais e de atletas. Essa elevada aquisição e seus planos a curto prazo poderá levar o futebol inglês a inflacionar ainda mais o mercado europeu, elevando os preços pagos pelo atletas atualmente, além da estrutura que o acompanha. Mas é inevitável não pensar que a rivalidade entre City e United poderá deixar de ser uma briga Davi-Golias para ser um embate de clubes cada vez mais semelhantes – pelo menos no tocante ao poderio financeiro e de suas origens e destinos.