Que fim deram as zebras?

2 06 2009
O final da temporada 2008/09 chegou, abrindo a temporada para balanços e especulações. Nos principais campeonatos europeus, algumas zebras ameaçaram galopar nos gramados, mas acabaram por não se concretizar e algumas até mesmo a voltar ao prognóstico de pré-temporada: a zona do “ostracismo” ou a briga pelo rebaixamento.

Caçula desta Bundesliga, o Hoffenheim pode ser considerado um dos azarões que tiveram mais sucesso. Ainda assim, fica uma ponta de decepção, já que o Hoffe chegou a sonhar alto com a conquista simbólica do título de campeão de inverno do certame alemão. Em um primeiro turno fabuloso, peitou os grandes do futebol alemão e virou o turno na frente do Bayern, no saldo de gols. Após um turno inteiro sem perder em jogos dentro de casa, a coisa desandou, principalmente pela falta de peças de reposição dentro do elenco e a contusão grave de seu principal jogador – o bósnio Vedad Ibisevic, artilheiro da Bundesliga àquela altura com 18 tentos. Apenas quatro vitórias no returno e chegando a amargar uma série de sete jogos sem vitória, o Hoffenheim não só viu a chance do título ficar distante, mas acabou o campeonato na sétima colocação, ficando de fora de qualquer competição européia em 2009/10. Mesmo recém-promovido, acabou ficando uma pontinha de decepção ao Hoffe. Enquanto isso no segundo turno, outra zebra arrancou rumo ao título da Bundesliga, comandados por Dzeko, Grafite e Misimovic: o Wolfsburg.

Outro que surpreendeu, mas por menos tempo em relação ao Hoffenheim e Wolfsburg foi o Hull City, também caçula na Premier League. O time do brasileiro Geovanni chegou a encostar na liderança, à época disputada por Chelsea e Liverpool com um time limitadíssimo, como foi comprovado após a boa fase dos Tigers, que durou até a nona rodada. Duas séries de 11 derrotas derrubaram o time, que terminou o campeonato apenas uma posição acima da zona de rebaixamento, se salvando na última rodada graças a derrocada do tradicional Newcastle, rebaixado para a segunda divisão. Outro que chegou a surpreender e a sonhar com uma vaga na Champions League foi o Aston Villa. No entanto, uma série de nove jogos sem vitória podaram os Villains na briga contra o Arsenal, que acabou ficando com a última vaga inglesa para a competição européia. O Villa acabou se contentando com uma vaga na Liga Europa após a sexta colocação na tabela.

A hegemonia do trio de ferro no Campeonato Português teve um estranho no ninho no início do campeonato: o Leixões. A equipe da cidade de Matosinhos ficou até a 11ª rodada entre os líderes, mas a carruagem acabou virando abóbora. Após quatro rodadas na liderança, o Leixões amargou uma brusca queda e a exemplo do que aconteceu com o Hoffenheim na Alemanha, acabou nem se classificando para qualquer competição continental em 2009/10.

E se o tradicionalismo acabou imperando na Europa com o tetracampeonato da Inter – onde o Genoa fez campanha surpreendente, quase conseguindo uma vaga na Champions – e do Porto e o tricampeonato do Manchester United, duas grandes hegemonias foram quebradas na Europa: o Bordeaux interrompeu a impressionante série de sete campeonatos consecutivos do Lyon e sagrou-se campeão francês pela primeira vez após 10 anos de jejum. E na Holanda, o AZ Alkmaar do técnico Louis Van Gaal – já contratado pelo Bayern – quebrou uma hegemonia de nove anos de conquistas da tradicional dupla PSV-Ajax na Eredivisie. Além do surpreendente campeonato – apenas o segundo de sua história – a Holanda ainda viu com espanto o Twente se classificar para a pré-Champions por conta do vice-campeonato. O até então tetracampeão PSV (4º) e o Ajax (3º) terão de se contentar com a disputa da Liga Europa.





Noviços rebeldes

7 10 2008
O caçula Hoffenheim chega à vice-liderança da Bundesliga: resultado de muitos investimentos, que fizeram o time chegar rapidamente a principal divisão do país.

Centenários, porém debutantes, Hoffenheim e Hull City estão dando o que falar em dois dos principais campeonatos do Velho Continente: Bundesliga e Premier League, que assistem ao galopar de duas zebras. O Hoffe só não está na liderança da competição graças a uma vitória no sufoco do concorrente direto Hamburgo, mas segue firme na classificação no segundo posto. Já os Tigers subiram de produção graças a dois êxitos em Londres: o primeiro, na surpreendente vitória contra o Arsenal por 2-1 em pleno Emirates Stadium, e o segundo na vitória pelo placar mínimo sobre o combalido Tottenham. Até onde os caçulas da primeira divisão de Alemanha e Inglaterra podem surpreender e dar trabalho às potências?

Mesmo com a coincidência de boas campanhas e da estréia na principal competição nacional de seus países de origem, as duas equipes têm trajetórias distintas. O Hoffenheim tem um mecenas, Dietmar Hopp. No entanto, o alemão não parece fazer o tipo “investidor aventureiro” que veio de um lugar distante, sem raízes com o clube, mas ainda sim um aficcionado por ele. Hopp adquiriu o controle financeiro do clube em 1990, por conta do vínculo afetivo com o clube, o qual frequentava em sua juventude. Mais tarde e já como engenheiro, fundou em 1972 a empresa de softwares SAP ao lado de outros colegas, todos dissidentes da IBM alemã. Atualmente, a SAP é a maior empresa produtora de softwares da Europa, o que possibilitou a Hopp construir fortuna estimada em cerca de US$ 1 bi, segundo a lista de bilionários da Revista Forbes.

Sempre atuando por divisões regionais da Alemanha, aos poucos a equipe foi galgando espaços no futebol alemão, com acessos meteóricos a partir de 2000, onde disputava o equivalente a quarta divisão local. Na disputa pela segundona a partir de 2006/07, Hopp resolveu investir alto em jovens promissores do futebol. Foi quando ele gastou cerca de 8 milhões de euros para trazer o promissor meia Carlos Eduardo, então vice-campeão sul-americano com o Grêmio em 2007, além dos atacantes africanos Demba Ba e Chinedu Obasi (medalha de prata em Pequim com a Nigéria) e do goleiro Ramazan Özcan (terceiro goleiro da Áustria na Euro 2008), pilares da boa campanha na temporada passada, quando o Hoffe ficou na segunda colocação da 2.Bundesliga. Aportando na Bundesliga, proporcionou jogos com muitos gols, como no fantástico revés de 5-4 sofrido frente ao Werder Bremen – onde chegou a estar vencendo por 4-3 – e na goleada contra o Dortmund por 4-1, mostrando a vocação ofensiva da jovem equipe, com média de idade de apenas 24 anos. Além dos destaques que levaram o Hoffe ao acesso, o atacante bósnio Vedad Ibisevic (ex-Alemannia Aachen) é a grande vedete da equipe até aqui, contribuindo com sete dos 16 gols marcados, o que o coloca como um dos artilheiros do campeonato até a sétima rodada, onde o time figura no segundo posto, com 13 pontos e apenas duas derrotas.

Já o Hull City, fundado no início do século, sempre perambulou pelas divisões intermediárias da Inglaterra. Sua maior conquista antes do acesso à Premier League havia sido o título da terceira divisão inglesa em 1965/66. E a partir dos anos 80, os Tigers começaram a atravessar grave crise financeira, salvos pela intervenção do ex-diretor do Leeds, Adam Pearson, que ajudou a sanar as contas do clube e viu a equipe se reerguer aos poucos, a partir do fim da década de 90. Em cinco anos, o Hull ascendeu da terceira para a primeira divisão, ao vencer o playoff de acesso contra o Bristol City em 2007/08, após terminar em terceiro na fase de pontos corridos.

No entanto, mesmo com o êxtase de estar na Premier League, o clube fez contratações modestas. Ao contrário do Hoffenheim, o Hull optou por trazer jogadores rodados a preços “modestos”, quando tratamos de cifras na Europa. A contratação mais cara do clube – e dos seus 104 anos de fundação – foi a do zagueiro inglês Anthony Gardner (ex-Portsmouth, 3.200.000 €). Maior destaque da equipe até aqui, o atacante brasileiro Geovanni (ex-Cruzeiro, Barcelona, Benfica e Manchester City) veio sem custos para os Tigers. Mesmo assim, vem corrspondendo à aposta do clube, com a artilharia da equipe (três gols, dois deles nas duas últimas rodadas). Além do brasileiro, destaque para o goleiro galês Boaz Myhill, que está no clube desde 2003 e é um dos responsáveis pela trajetória meteórica da equipe rumo à primeirona. É um time modesto e que ainda peca pela instabilidade e falta de equilíbrio entre defesa e ataque, já que mesmo na terceira colocação com 14 pontos, possui saldo de gols negativo (10GP e 11GC). Mesmo assim, já colocou as manguinhas de fora ao bater Arsenal e Tottenham fora de seus domínios e só perdendo uma partida em sete disputadas – goleado em casa pelo Wigan por 5-0

Além da excelente fase, ambos desfrutam de audaciosos projetos de estádios. Enquanto o Hull City atua no KC Stadium, com capacidade para 25 mil torcedores e inaugurado em 2002, o Hoffenheim está construindo uma arena com capacidade para 30 mil torcedores em Heidelberg, prevista para janeiro de 2009. O “velho” Dietmar-Hopp Stadion, construído em 1999, não atende às exigências da Bundesliga, já que possui apenas 5000 lugares. Atualmente, a equipe manda suas partidas em Mannheim, no Carl-Benz Stadion, de 26 mil lugares.

Analisando as chances dos novatos, o time do Hull é bem modesto e não deve fazer papel relevante no Inglês em um futuro próximo. A manutenção na Premier League já seria uma vitória, mesmo contando com um time mais experiente, porém limitado tecnicamente. Já o Hoffenheim, com maiores investimentos na base jovem, pode inspirar-se em seu vizinho Karlsruher – do mesmo estado alemão de Baden-Württemberg, ao sul da Alemanha – que fez uma razoável campanha no mesmo ano de sua promoção à Bundesliga, em 2007/08, quando passou longe da zona de rebaixamento e chegou a sonhar com uma vaga na Copa UEFA. Em campeonatos onde o abismo entre grandes e pequenos é enorme, não é curioso deixar de pensar o incômodo que esses nanicos estão trazendo. Pelo menos, provisoriamente.