Renascimento

12 03 2009
Não, este não é mais um texto sobre a nova volta de Ronaldo, mas também envolve um atacante de camisa nove, com feitos bem mais modestos no futebol que o Fenômeno. Há pouco mais de um ano, após entrada violentíssima do zagueiro Martin Taylor, o brasileiro naturalizado croata Eduardo da Silva teve a contusão mais grave de sua carreira: fraturou gravemente a perna na altura do tornozelo, numa das imagens mais fortes ocorridas no futebol em 2008. À época, o camisa nove do Arsenal poderia até ter a perna amputada, o que só não aconteceu graças a rápida e eficiente intervenção da equipe médica do clube, ainda dentro de campo na prestação dos primeiros socorros. A grave contusão custou a Eduardo a última Eurocopa, da qual seria fatalmente titular na seleção croata comandada por Slaven Bilic.Após uma lenta  recuperação de quase um ano, o atleta de 26 anos retornou aos Gunners oficialmente em 16 de fevereiro, a pouco mais de uma semana de seu aniversário, em partida válida pela FA Cup (Copa da Inglaterra) diante do Cardiff. Marcou dois gols – um de cabeça e outro em penalidade sofrida por ele mesmo -, na vitória por 4-0. No entanto, acabou distendendo um músculo da perna, foi substituído e ficou mais três semanas no departamento médico. Refeito da nova lesão, voltou ao time comandado por Arsène Wenger novamente em uma partida da Copa da Inglaterra, desta vez diante do Burnley neste último domingo. Atuando com a equipe recheada de reservas – visando a partida deste meio de semana contra a Roma, pela Champions – Eduardo entrou desde o começo da partida, com a tarja de capitão. Apesar da fragilidade dos Clarets – na sétima posição da segunda divisão inglesa – Eduardo atuou bem a vontade e foi um dos destaques da vitória por 3-0, marcando um golaço de “parafuso” no ângulo do goleiro Jensen. Explico: apesar de já ter marcado um gol com a perna que havia sido contundida – a esquerda -, o tento foi através de pênalti. No lance contra o Burnley, Eduardo pegou o cruzamento de Song de primeira com a parte de fora do pé esquerdo, quando o mais lógico seria virar o corpo para “chapar” a bola ou mesmo chutar de direita. justo na parte afetada pela fratura, até soando como uma resposta para quem ainda duvidava de sua condição de jogo, pois o chute foi totalmente consciente.

A volta ainda é gradual. Mas com Eduardo com ritmo de jogo, será de grande valia ao Arsenal, que ainda luta para prosseguir na Champions (venceu o primeiro duelo das oitavas contra a Roma por 1-0) e para buscar uma colocação melhor na Premier League, onde faz campanha irregular e é apenas quinto, atrás do Aston Villa. Já que a onda agora é falar de Ronaldo e o início de seu terceiro “renascimento”, nada como nos espelharmos no caso de Eduardo, que mostra mais um exemplo de superação.

Gol de “parafuso” marcado por Eduardo da Silva contra o Burnley





Made in Brazil

17 02 2009
Após nove anos no futebol belga, o paulista Igor de Camargo, 25, fez sua estréia no último dia 11 pelos Diables Rouges, diante da Estônia

Que o jogador brasileiro é tipo exportação, todo mundo sabe. Cada vez mais tratado como mercadoria, o jogador brasileiro – mesmo com a falta de profissionalismo e aplicação tática de alguns – quase sempre é investimento garantido, assim como o pau-brasil, a cana-de-açúcar, a borracha e o café já foram um dia. Em 2008, as transferências de atletas brasileiros ao exterior bateram recorde: 1176 jogadores rumaram para as diversas partes do globo, mais que o dobro em relação há dez anos atrás (530) e treze vezes maior do que há 30 anos (87).

Naturalmente, alguns desses jogadores acabam fazendo carreira no exterior e acabam se incorporando ao país de destino. O sucesso fora do Brasil quase sempre traz como conseqüência a dupla nacionalidade e os pedidos de defender a respectiva seleção nacional. Maior importador de jogadores – até pela facilidade do idioma – Portugal foi responsável por 209 contratações no ano passado. E como conseqüência, dois jogadores figuram com constância na seleção nacional: o zagueiro Pepe e o meia Deco. E em processo de naturalização, está o atacante Liédson, do Sporting. Com passagem destacada no Brasil – Coritiba, Flamengo e Corinthians -, o Levezinho rumou aos Leões em 2003, sendo artilheiro do campeonato luso por duas vezes (2004/05 e 2006/07) e já é o maior artilheiro estrangeiro da história do Sporting, marca atingida em janeiro deste ano ao marcar o gol de número 159, com os três gols marcados diante do Paços de Ferreira. Algumas vezes teve seu nome cotado para defender o Brasil, mas nunca foi lembrado pelos técnicos aqui passaram. Carlos Queiróz, treinador da seleção portuguesa, espera ansiosamente que a situação de Liédson se regularize para convocá-lo, visto que Portugal tem graves problemas no ataque de sua equipe.

Liédson provavelmente seguirá os caminhos de Roger Guerreiro (Polônia), Eduardo (Croácia) e Igor de Camargo (Bélgica), citando exemplos mais recentes. A exceção de Roger, naturalizado com pouco tempo no futebol polonês, Eduardo e Igor tiveram sucesso em times importantes de seus respectivos países – Dínamo de Zagreb e Standard de Liége – o que trouxe o convite de naturalização. Roger e Eduardo firmam-se como peças importantes de seus selecionados, enquanto Igor foi chamado pelo técnico René Vandereycken para a seleção belga pela primeira vez no jogo do último 11 de fevereiro contra a Estônia. Atuando no futebol belga desde 2000, o atacante paulista é fluente em francês e holandês e fez toda a carreira no futebol belga.Claro que deve haver critérios estabelecidos pela FIFA sobre o tema, como o “recrutamento” de jogadores para atuar em troca de dinheiro, como já acena com a possibilidade os petrodólares árabes, afim de turbinar suas seleções. Mas a identificação e o grande tempo de convivência em seus países de destino pode e deve ser premiada com a possibilidade de defender as cores do país que adotaram e os adotou. Vejo como uma espécie de gratidão.