Atingindo a maturidade

8 04 2009
Não se trata de um futebol exuberante, cheio de lances plásticos. Mas a eficiência espanhola está cada vez mais evidente. E a rodada européia das Eliminatórias para a Copa do Mundo provou a evolução de Fúria como equipe de futebol competitiva. A conquista da Eurocopa e a impecável campanha no Grupo 5 Europeu – seis vitórias em seis partidas com 13 gols anotados e apenas dois sofridos – mostram que a Espanha é, atualmente, a seleção a ser batida. O andar da carruagem e os seis pontos de vantagem sobre a surpreendente Bósnia-Herzegovina faltando quatro partidas para o final da fase de classificação sugerem que os comandados de Vicente Del Bosque estão muito próximos da África do Sul em 2010.

A última derrota da Fúria em jogos oficiais foi em um amistoso disputado na cidade de Cádiz em novembro de 2006 contra a Romênia, por 1-0. De lá pra cá, são 31 partidas sem derrota, sendo que as últimas onze marcaram vitórias de La Roja – apenas a três do recorde de seleções, pertencentes a Brasil e frança, com 14 vitórias consecutivas. Quando o técnico Luís Aragonés convocou os jogadores para a Euro 2008, a regularidade da Espanha em campo não convencia aos torcedores e imprensa em geral, que criticaram o técnico pela inclusão de Marcos Senna entre os 23 e a exclusão de Raúl, ídolo e artilheiro tanto do Real Madrid quanto da Fúria. Cresceu dentro da competição, ganhou moral e levou o título de forma justa, com Senna se consagrando como um dos pilares do time campeão. E Aragonés – que logo após a Euro deixou a Espanha pelo Fenerbahçe – deixou frutos, que estão sendo prontamente colhidos e aproveitados pelo seu sucessor, o competente Del Bosque: além de manter a base campeã européia – marcada principalmente pela coletividade e versatilidade – Del Bosque vem mantendo o esquema tático semelhante ao implantado por Aragonés.

Como na Euro (visto no post sobre a final aqui), a Espanha consegue imprimir uma variação tática muito interessante. Nas partidas mais fáceis ou onde a equipe precisa ir ao ataque, o time se utiliza do 4-4-2, com Villa e Torres no comando de ataque. Sem poder contar com um dos dois ou com opção de povoar o meio e ter mais jogadores de qualidade vindo de trás, a equipe assume o 4-5-1, com dois jogadores abertos pelos flancos enquanto os meias e volantes saem para o jogo com bastante versatilidade, o que dá o equilíbrio para a equipe atacar e se defender com eficiência. Os jogos contra a Turquia são evidências de tais variações. Na primeira partida, disputada no último sábado (28/03) em Madrid, Del Bosque optou por Torres e Villa – que acabou sentindo lesão no segundo tempo e foi substituído por Mata – com Senna mais fixo e Xabi Alonso e Xavi flutuando em direção ao ataque, com Cazorla mais à frente encostando na dupla de ataque.

Já na partida disputada em Istambul nesta quarta (01/04) e com a contusão de Villa, o técnico optou por deixar Torres sozinho no comando de ataque, com Senna e Alonso como volantes, o canhoto David Silva aberto na direita e Riera na esquerda – semelhante a função dele no Liverpool – com Xavi conduzindo a bola e encostando mais no ataque. Além das diversas opções de meio-campo – Xavi, Senna, Alonso, Iniesta, Silva e Cazorla – a Espanha poderá contar com o breve retorno de Fabregas e Joaquín, contundidos, além de contar com a boa safra de jovens jogadores chegando a Fúria como Busquets, Juan Mata e Bojan Krkic, por exemplo. Atrás, a segurança do capitão Casillas – que vive seu melhor momento na carreira – e uma zaga que se não é excelente, não compromete – principalmente com a versatilidade de Sérgio Ramos. No ataque, Villa e Torres são letais e ambos se ovimentam bastante, mesmo não tendo substitutos consolidados à altura na reserva.

Apesar dos resultados magros, vale lembrar que a Turquia veio como uma das forças deste Grupo 5 e começou a rodada três pontos atrás da Espanha. E arrancar três pontos dos turcos em seus domínios foi um resultado importantíssimo e que abrilhanta ainda mais o bom momento do time, já que a Turquia – semifinalista da última Euro – tem bons valores treinados pelo bom técnico Fatih Terim.

Com a iminente classificação para a Copa do Mundo, a Copa das Confederações – disputada em junho, na própria África do Sul – será uma excelente oportunidade de confirmar a Espanha como uma das favoritas ao Mundial, já que o grupo em que ela está – Iraque, África do Sul e Nova Zelândia – cruzará, dentro da normalidade, com Brasil ou Itália numa provável semi ou final, pois tratam se de seleções que têm tradição e crescem nas adversidades, já que neste momento não desfrutam de bom futebol e enfrentam algumas dificuldades em suas respectivas Eliminatórias. Será a grande chance da Fúria deixar o estigma de eterna seleção técnica emergente para se firmar de vez como favorita e ter a chance de entrar no restrito rol das seleções campeãs mundiais.

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“Esterno” necessário

29 09 2008
Após quatro anos, Mancini volta à Seleção jogando bem na posição em que rendeu mais desde a sua ida ao Calcio: o meio-campo

Em tempo, Mancini figurou na lista de convocados de Dunga para a próxima rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, em outubro. Uma boa chance de desafogar a meia da equipe, que joga apenas com um atacante e centraliza a maioria de suas jogadas, já que Maicon não apóia tanto na Seleção como faz na Inter, enquanto Kléber (provavelmente o titular, pelo menos nesta primeira partida contra a Venezuela) não faz jus a mais uma convocação por viver o pior momento de sua carreira.

Comentando informalmente com alguns amigos aqui do Opinião FC antes de sua convocação, citei que faltava alguém como ele no Brasil. Diego é um armador e carrega a bola pelo centro, assim como Kaká. Ronaldinho – que já atuou pelas lados com excelência – é reserva no Milan e ainda parece mostrar um pouco de “desinteresse” em jogar bola. Júlio Baptista ainda é inexplicavelmente chamado, pois apesar da sua versatilidade, não vem mostrando regularidade e futebol diferenciado na Roma – curiosamente, contratado para suprir a lacuna deixada por Mancini, que deixou a equipe giallorossi nesta temporada – enquanto Anderson não joga como no Manchester United.

Atuando mais pelo lado esquerdo (mas também não é difícil vê-lo na direita, já que é lateral-direito de origem), Mancini se caracteriza pela velocidade, alem da habilidade de trazer a bola dos flancos para o centro, ajudando na passagem dos laterais e na movimentação dos meias e atacantes. Além da voluntariedade, Mancini sempre aparece bem para marcar gols e dar perigosos chutes de fora da área.

A surpresa de alguns comentaristas – normalmente os velhos e desatualizados, que pouco acompanham o futebol europeu – em ver Mancini ser convocado na posição que o consagrou na Roma e na qual Mourinho aposta nele na Inter é irreal. A lembrança é do voluntarioso ala que brilhou pelo Atlético/MG. No entanto, Mancini evoluiu bastante no futebol italiano, onde foi utilizado por vezes como segundo atacante na Roma de Luciano Spalletti, dada a sua habilidade, velocidade e versatilidade. O esterno (como são chamados na Itália os meias que atuam mais pelos flancos) poderá ser útil e se firmar na equipe, se Dunga o utilizar corretamente, já que consiste no único jogador do tipo no atual elenco.

Mas mesmo acertando na volta de Kaká, Mancini e Pato à Seleção, o elenco em geral ainda é motivo de critica em muitas posições. Josué e Gilberto Silva há muito não merecem mais a amarelinha enquanto Anderson é mal utilizado, Kléber vive péssima fase, Thiago Silva não lembra em nada o jogador vigoroso da boa campanha do Fluminense na Libertadores deste ano e o nome de Doni para a reserva de Júlio César continua questionável. Mas os jogos relativamente fáceis contra Venezuela e Colômbia podem dar a confiança necessária para o início da consolidação das “apostas”, como Mancini e Pato.

Goleiros
Julio César (Inter de Milão) e Doni (Roma)
Laterais
Maicon (Inter de Milão), Daniel Alves (Barcelona), Juan Maldonado (Flamengo) e Kleber (Santos)
Zagueiros
Lúcio (Bayern de Munique), Alex (Chelsea), Juan (Roma) e Thiago Silva (Fluminense)
Meio-campistas
Lucas (Liverpool), Gilberto Silva (Panathinaikos), Anderson (Manchester United), Kaká (Milan) Elano (Manchester City), Josué (Wolfsburg), Julio Baptista (Roma) e Mancini (Inter de Milão)
Atacantes
Robinho (Manchester City) Jô (Manchester City) Luis Fabiano (Sevilla) Alexandre Pato (Milan)





Futebol e patriotismo

5 07 2008
Todo mundo sabe o quanto o estadunidense é patriota em relação ao 4 de julho, data que marca o aniversário de sua independência do domínio inglês. No entanto, houve um dia em que essa importante data coincidiu com o maior evento de futebol.

Em 1994, a Copa do Mundo realizada nos EUA tentavam colocá-los no mapa do futebol. Ou fazer com que eles se interessassem por isso. Não é preciso nem lembrar a importância e a rentabilidade de consumo dos norte-americanos em esportes como o futebol americano, basquete, baseball e hockey, por exemplo. A média de público de 60 mil espectadores foi, em números absolutos, a maior de todas as Copas. E no embalo da empolgada torcida da casa, a seleção dos EUA tentava fazer bonito na competição. Na época, os Yanks estavam tentando se reafirmar no futebol. Para isso, tinham como técnico o experiente Bora Milutinovic, à frente da equipe desde 1991.

Na Copa, começou a campanha no Grupo A (EUA, Suiça Romênia e Colômbia), com uma vitória, um empate e uma derrota. Conseguiu a classificação e iria pegar o Brasil nas oitavas. Somado ao fato de enfrentar a Seleção brasileira, o jogo seria em 4 de julho. No calor da Califórnia, os EUA proporcionariam um dos seus maiores momentos do futebol moderno, comparável ao terceiro lugar na Copa de 1930, a vitória sobre os ingleses em 1950 e ao proporcionar a “partida da paz”, com os eternos inimigos políticos, os iranianos, em 1998.

Na Seleção de Parreira, Raí sairia para entrada de Mazinho. O camisa dez fazia péssima Copa à aquela altura, deixando a cargo de Zinho a armação das jogadas. Mazinho o auxiliaria, mas sempre reforçando a marcação no meio, como pregava a cartilha de Parreira. No jogo, o Brasil penava para passar pela defesa, enquanto os EUA se propuseram a jogar mais atrás, com boa partida da dupla Balboa-Lalas. Com um Brasil pouco efetivo e algumas chances esporádicas americanas, a torcida do Stanford começou a acreditar no impossível. E após a expulsão de Leonardo, por cotovelada em Tab Ramos – a qual custou ao ala canarinho o restante da Copa por suspensão – muitos achavam que se os yanks fizessem um gol, o Brasil poderia se desesperar. No entanto, após muita perseverança e algumas chanes perdidas, o passe de Romário achou Bebeto na direita, aos 28 minutos do 2º tempo. E o remate do camisa sete veio cruzado, vencendo Tony Meola.

Mesmo com a chegada de Beckham, grande expoente do atual momento futebol nos EUA, o futebol profissional por lá ainda peca pela falta de técnica e competitividade. Apesar do dinheiro, não tem o nível competição do seu vizinho, o México. Mesmo assim, muitos estadunidenses já brilham pelos campos europeus, tais como DaMarcus Beasley, Tim Howard e Freddy Adu, por exemplo. E o surgimento dessa geração se deve muito a aquela tarde de calor na Califórnia, onde muitos acreditaram que o patriotismo e a empolgação daquela geração de Balboa, Lalas, Wynalda e Meola pudessem vencer a técnica (apesar do simplismo de Parreira) de uma seleção triacampeã mundial.