Game over, Felipão

14 02 2009
Sem os devidos reforços e derrotas para os principais rivais ajudaram a encurtar a missão de Felipão no Chelsea, que durou apenas sete meses

O empate em Stamford Bridge para o Hull City foi a gota d’água para o mecenas do Chelsea, Roman Abramovitch, dar cartão vermelho para Luiz Felipe Scolari do comando dos Blues. Mesmo com todas as dificuldades da adaptação e implementação de sua filisofia no clube londrino, pareceu uma decisão precipitada. Primeiro, porque o Chelsea – leia-se Abramovitch – atravessa dificuldades financeiras, e por isso, pouco reforçou/renovou o seu elenco. Apenas Deco, Bosingwa, Mineiro e Quaresma – os últimos dois a custo zero – chegaram em 2008/09, em um elenco que sofreria importantes perdas, como o polivalente Essien e Joe Cole pela temporada inteira. Além disso, teve problemas com alguns medalhões da equipe, o que vinha o atrapalhando em uma de suas principais virtudes nos grupos vencedores que construiu: fechar o grupo. Joe Cole, Drogba e Anelka não bateram diretamente contra Felipão, mas as reclamações constantes pela titularidade atrapalharam o foco do elenco.

Em pouco mais de sete meses no comando dos Blues, Felipão teve aproveitamento de 62 %. Em 36 jogos, foram 19 vitórias, dez empates e sete derrotas. No entanto, dois foram os fatores – tecnicamente falando – que contribuíram decisivamente para que Felipão e o Chelsea vissem o título inglês mais distante: o mau aproveitamento dos jogos em casa e o péssimo aproveitamento nos clássicos, primordiais para quem quer ser campeão inglês. Em seus domínios, o Chelsea venceu apenas seis partidas das 13 disputadas, com cinco empates e duas derrotas. Na época de sua primeira derrota – na nona rodada da Premier League para o Liverpool – o Chelsea viu ser quebrado uma série de 86 jogos sem derrota em casa em um período de quatro anos. E nos clássicos, Felipão e o Chelsea não conseguiram uma vitória sequer – duas derrotas para o Liverpool, uma para o Arsenal e uma derrota e um empate frente ao Manchester United.O quarto lugar na Premier League – 49 pontos, sete atrás do Manchester United, que tem uma partida a menos – a irregular campanha na Champions e a eliminação na Copa da Liga Inglesa para o Burnley, da segunda divisão, fizeram com que a torcida e boa parte da imprensa inglesa pedisse a cabeça do brasileiro, mesmo com os Blues terminando o primeiro turno na cola do então líder Liverpool, terminando a primeira parte do campeonato com o melhor ataque (40 gols) e a melhor defesa (nove gols sofridos).

No entanto, desde que Felipão começou a treinar a Seleção Brasileira e após a Copa de 2002, a portuguesa, ele se mostrou um técnico de trabalhos a longo prazo. Ou quem não se lembra do episódio da derrota para Honduras, na Copa América de 2001, disputada na Colômbia, por 2-0. Ainda assim, classificou-se com dificuldades para a Copa de 2002, e deixou Romário fora do elenco e ainda assim, sagrou-se campeão. E na época em que assumiu Portugal, causou indisposição com jogadores, torcida e imprensa lusa bancando Deco em Portugal e deixando o ídolo Vítor Baía fora dos planos para a Euro que se avizinhava, a qual seria disputada na própria terrinha. Os resultados da aposta em Felipão, a longo prazo, vieram na forma de uma Copa do Mundo e um vice da Eurocopa.

A demissão de Felipão nos faz repensar as reais dimensões da crise pela qual o Chelsea atravessa: os Blues devem pensar seriamente na renovação de seu milionário – e neste momento insuficiente elenco – se quiserem continuar cobiçando seu principal objetivo: a Champions League. Esse será o desafio do próximo técnico: foco total na Champions e mover os pauzinhos para uma renovação profunda no elenco.





A ponta do iceberg?

3 09 2008
No embalo da polêmica da surpreendente transferência estratosférica de Robinho para o Manchester City, um outro assunto é recorrente: Outro mecenas aporta na Inglaterra, o árabe Sulaiman Al Fahim. Seu sonho é fazer do City um dos seus “brinquedinhos” mais bem sucedidos, assim como Roman Abramovich faz com o Chelsea há mais de cinco temporadas. Através do grupo de investidores ADUG (Abu Dhabi United Group), Fahim promete atropelar a concorrência, prometendo mundos e fundos, chegando até mesmo a tencionar a contratação do maior ídolo do rival, Cristiano Ronaldo.

O processo de “crescimento” do Man City se iniciou na temporada passada com a aquisição de ações do clube pelo bilionário Thaksin Shinawatra, outro que queria notoriedade fora de seu país natal, a Tailândia. Investiu bom montante e viu a equipe vislumbrar uma vaga na Champions League desta temporada. Mas no fim, a irregularidade e inexperiência do elenco fez com que esse projeto meteórico caísse por terra. No entanto, essa nova injeção de capital pode trazer o clube para um projeto parecido com a aquisição do Chelsea. Abramovitch assumiu um time falido, de porte médio e longe da briga pelos principais títulos. Seguidos investimentos puseram o Chelsea no foco do futebol europeu, mesmo não tendo conquistado nenhuma Champions League. Os Blues bateram na trave quatro vezes (três semis e uma final), porém Abramovitch ainda não desistiu de sua meta. Com os Citizens, o processo promete se repetir. A aquisição de Robinho por 40 milhões de euros parece só o começo para que a equipe seja um “novo paraíso azul” e seduza os principais jogadores com seu quase inesgotável capital árabe, colocando a equipe na rota dos principais times da Inglaterra, inicialmente. Os incrédulos dirão: quem quer jogar no Manchester City? E quem queria jogar no Chelsea há seis anos atrás? Ou nos campeonatos de futebol do mundo árabe, que seduzem cada vez mais jogadores mais famosos e não tão acabados para o futebol?

Após muitos times da Premier League terem quebrado devido a bolha financeira ocorrida na década de 90 (que acometeria o Leeds United mais adiante), os times passaram a operar na bolsa de valores, atitude essa que atraiu muitos investidores estrangeiros de olho no potencial do futebol inglês. A aquisição de Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Liverpool, Portsmouth, Aston Villa e agora o City por mauricinhos aficcionados por futebol ou por grandes grupos de investimento mostrou isso. Como citou David Conn, em sua coluna no site do Guardian, os times parecem cada vez mais se exibir mostrando quem tem o dono mais rico ou mesmo quem traz o jogador mais badalado.

Não estou aqui defendendo o modelo de administração do Chelsea ou de qualquer outro clube que tenha o poder concentrado nas mãos daquele que assina os cheques, fórmula essa que comprovadamente traz enormes prejuízos financeiros ao clube, que aumenta suas despesas desproporcionalmente a renda recebida por conta de maior exposição na televisão, venda de produtos oficiais e de atletas. Essa elevada aquisição e seus planos a curto prazo poderá levar o futebol inglês a inflacionar ainda mais o mercado europeu, elevando os preços pagos pelo atletas atualmente, além da estrutura que o acompanha. Mas é inevitável não pensar que a rivalidade entre City e United poderá deixar de ser uma briga Davi-Golias para ser um embate de clubes cada vez mais semelhantes – pelo menos no tocante ao poderio financeiro e de suas origens e destinos.