6+5: o cálculo complexo

6 06 2009
Após a definição das cidades-sede para a Copa de 2014 no Brasil, uma das pautas mais esperadas do Congresso da FIFA, realizado em Nassau, foi abordada novamente: a limitação do número de jogadores estrangeiros utilizados em campo pelos clubes. Conhecida como a regra do 6+5 – seis jogadores nativos do país de origem do clube e cinco estrangeiros -, a regra causa polêmica. Principal afetada pela nova resolução, a UEFA já se levanta contra a proposta. Mesmo com Michel Platini não sendo totalmente contra a idéia, a pressão da maioria dos clubes europeus – principalmente médios e grandes – faz com que o francês se torne da idéia, fortemente defendida pela FIFA na figura de Sepp Blatter. E a aliança existente entre os dois cartolas pode afundar se Blatter continuar insistindo no 6+5, pois segundo o presidente da UEFA a resolução afetará um dos principais pilares da União Européia: a livre circulação entre os países-membros, no que diz respeito a prestação de serviços e leis trabalhistas. “Para ter um calendário, temos de saber se é legal ou ilegal. Não é sobre a Fifa ou sobre o futebol de uma forma geral. É sobre as leis da União Europeia”, afirmou Platini.

Blatter se ampara no Tratado de Lisboa – ratificado pela UE em outubro de 2007 e que espera o aval de todos os 27 países-membros para entrar em vigor em sua plenitude – e assim que as novas leis entrarem em vigor, serão convocadas eleições entre os 208 confederados da entidade máxima do futebol. Entre as medidas do novo tratado – que substitui a Constituição Européia de 2004 – a UE passará a se utilizar de poder jurídico unificado, outro grande avanço do bloco após a utilização de uma moeda unificada, o Euro. O presidente da FIFA deseja que o futebol não seja tratado exatamente como outros tipos de ocupação, devido as particularidades e interesses individuais e coletivos que o esporte bretão envolve. “Temos de perguntar adeptos em todo o mundo: o senhor é a favor de uma forte equipa nacional? É a favor da equipa nacional com os jogadores atuando no campeonato do seu país? É a favor de jovens jogadores em formação e, em seguida, obter acesso para a equipe principal? Deseja que jogadores que vêm da base do clube assinem seu primeiro contato por ele? Se você responder “sim” a todas estas perguntas, então você gosta de mim e é a favor da regra do 6+5”, crava Blatter, em entrevista ao site da FIFA. Equipes como a Inter – sete italianos dentre 32 atletas no elenco – e o Arsenal – três ingleses entre 32 atletas – são grandes expoentes do mosaico de nacionalidades que se tornaram alguns clubes europeus. Na contramão dessa tendência e mostrando que é possível investir na base e ser forte, o Barcelona entrou em campo na final da Champions League de 2008/09 com seis espanhóis, todos revelados em suas categorias de base.

O fortalecimento e a identidade da relação clubes-seleção talvez seja o ponto mais positivo dessa lei. Como resultado, teriamos campeonatos nacionais e continentais mais equiparados, os clubes passariam a investir mais na formação de jogadores nativos do que na aquisição de jogadores consagrados por valores estratosféricos. Com mais jogadores na vitrine, a seleção nacional correspondente ganharia mais opções de jogadores e elas poderiam se tornar mais fortes. Além do 6+5, Blatter quer dificultar a regra para a dupla naturalização. Atualmente, dois anos são suficientes para que o jogador obtenha o benefício e o presidente da FIFA que aumentar o prazo para cinco anos.

Medidas louváveis e que beneficiariam também os continentes formadores de atletas, como as Américas e a África, mas que contarão com fortes entraves da bilionária indústria do futebol, personificada em patrocinadores, empresários de atletas e investidores-presidentes de clubes, como Abramovitch no Chelsea, Berlusconi no Milan e diversos mecenas de origem árabe que seguem adquirindo clubes europeus. Resta saber se a FIFA e Blatter conseguirão atravessar toda essa gama de interesses para a implemetação da nova lei ou se eles acabarão sucumbindo diante da politicagem e da regra de boa-vizinhança existente no futebol.





Aposta na renovação

4 06 2009
Depois de quase oito anos à frente do Milan, Carlo Ancelotti, enfim, deixa o comando do Milan. Mesmo reconhecendo sua trajetória de sucesso pelo rossoneri – duas Champions League, um scudetto, uma Copa da Itália, duas Supercopas da UEFA e um Mundial de Clubes da FIFA – Ancelotti já vinha tendo seus métodos contestados há algum tempo. E com a discreta participação do Milan nas últimas duas temporadas – quinto no Calcio 2007/08 e vice em 2008/09 – o respaldo dado ao seu trabalho acabou e o técnico italiano terá novo desafio no instável Chelsea.

A escolha de Leonardo como novo técnico do Milan não deixou de ser uma pitada de ousadia. Apesar de conhecer bem o elenco e já possuir bom trânsito entre os jogadores e Silvio Berlusconi, a aposta no brasileiro não deixa de ter inspiração no ótimo trabalho de Guardiola à frente do Barcelona: triplete europeu do ex-jogador blaugrana em seu primeiro desafio como técnico de futebol. Além disso, a aposta em Leonardo foi feita mesmo com bons nomes disponíveis no mercado europeu, tais como Felipão, Rijkaard, Mancini, Juande Ramos e Klinsmann, entre outros.

Na coletiva de sua apresentação oficial, entre outras coisas, exaltou o futebol ofensivo e bem jogado, preceitos que tentará implantar no Milan: “Eu me inspiro no jogo do Brasil de Telê Santana. Admiro muito esse time de 1982, rápido e com jogadores que não tinham funções fixas e com dois laterais muito ofensivos”, afirmou o agora treinador Leonardo. Mas a tarefa é árdua. O envelhecido elenco rossoneri clama há tempos por uma renovação, principalmente na parte defensiva. A aposentadoria de Maldini deve abrir espaço para uma limpa no setor, principalmente com o aproveitamento de Thiago Silva. Outros desafios de Léo serão a recuperação do futebol de Ronaldinho, relegado ao banco durante maior parte desta temporada que acabou, e a reposição da iminente saída de Kaká ao Real Madrid, praticamente cravada pela imprensa européia. Além da aposta em Thiago Silva e Ronaldinho, Leonardo certamente se utilizará do talento de Alexandre Pato, um dos poucos acertos de Ancelotti no Milan dos últimos anos.

Enquanto isso, no Santiago Bernabéu, a aposta é em Manuel Pellegrini. O técnico chileno, com passagens pelo futebol argentino e responsável pelo upgrade do então pequenino Villarreal no cenário espanhol e europeu em um período de quatro anos, chega a um Real Madrid que promete retomar a era galáctica, com o retorno de Florentino Pérez à presidência merengue. Kaká deve ser apenas o primeiro reforço de um clube que parece não medir esforços para acabar com o “ostracismo” merengue e a adoração ao futebol e elenco do arqui-rival Barcelona. Resta saber como o Inginero responderá ao desafio de comandar uma equipe de nível mundial pela primeira vez, tarefa na qual os promissores Bernd Schüster e Juande Ramos não conseguiram realizar a frente de um gigante como o Real Madrid.





Que fim deram as zebras?

2 06 2009
O final da temporada 2008/09 chegou, abrindo a temporada para balanços e especulações. Nos principais campeonatos europeus, algumas zebras ameaçaram galopar nos gramados, mas acabaram por não se concretizar e algumas até mesmo a voltar ao prognóstico de pré-temporada: a zona do “ostracismo” ou a briga pelo rebaixamento.

Caçula desta Bundesliga, o Hoffenheim pode ser considerado um dos azarões que tiveram mais sucesso. Ainda assim, fica uma ponta de decepção, já que o Hoffe chegou a sonhar alto com a conquista simbólica do título de campeão de inverno do certame alemão. Em um primeiro turno fabuloso, peitou os grandes do futebol alemão e virou o turno na frente do Bayern, no saldo de gols. Após um turno inteiro sem perder em jogos dentro de casa, a coisa desandou, principalmente pela falta de peças de reposição dentro do elenco e a contusão grave de seu principal jogador – o bósnio Vedad Ibisevic, artilheiro da Bundesliga àquela altura com 18 tentos. Apenas quatro vitórias no returno e chegando a amargar uma série de sete jogos sem vitória, o Hoffenheim não só viu a chance do título ficar distante, mas acabou o campeonato na sétima colocação, ficando de fora de qualquer competição européia em 2009/10. Mesmo recém-promovido, acabou ficando uma pontinha de decepção ao Hoffe. Enquanto isso no segundo turno, outra zebra arrancou rumo ao título da Bundesliga, comandados por Dzeko, Grafite e Misimovic: o Wolfsburg.

Outro que surpreendeu, mas por menos tempo em relação ao Hoffenheim e Wolfsburg foi o Hull City, também caçula na Premier League. O time do brasileiro Geovanni chegou a encostar na liderança, à época disputada por Chelsea e Liverpool com um time limitadíssimo, como foi comprovado após a boa fase dos Tigers, que durou até a nona rodada. Duas séries de 11 derrotas derrubaram o time, que terminou o campeonato apenas uma posição acima da zona de rebaixamento, se salvando na última rodada graças a derrocada do tradicional Newcastle, rebaixado para a segunda divisão. Outro que chegou a surpreender e a sonhar com uma vaga na Champions League foi o Aston Villa. No entanto, uma série de nove jogos sem vitória podaram os Villains na briga contra o Arsenal, que acabou ficando com a última vaga inglesa para a competição européia. O Villa acabou se contentando com uma vaga na Liga Europa após a sexta colocação na tabela.

A hegemonia do trio de ferro no Campeonato Português teve um estranho no ninho no início do campeonato: o Leixões. A equipe da cidade de Matosinhos ficou até a 11ª rodada entre os líderes, mas a carruagem acabou virando abóbora. Após quatro rodadas na liderança, o Leixões amargou uma brusca queda e a exemplo do que aconteceu com o Hoffenheim na Alemanha, acabou nem se classificando para qualquer competição continental em 2009/10.

E se o tradicionalismo acabou imperando na Europa com o tetracampeonato da Inter – onde o Genoa fez campanha surpreendente, quase conseguindo uma vaga na Champions – e do Porto e o tricampeonato do Manchester United, duas grandes hegemonias foram quebradas na Europa: o Bordeaux interrompeu a impressionante série de sete campeonatos consecutivos do Lyon e sagrou-se campeão francês pela primeira vez após 10 anos de jejum. E na Holanda, o AZ Alkmaar do técnico Louis Van Gaal – já contratado pelo Bayern – quebrou uma hegemonia de nove anos de conquistas da tradicional dupla PSV-Ajax na Eredivisie. Além do surpreendente campeonato – apenas o segundo de sua história – a Holanda ainda viu com espanto o Twente se classificar para a pré-Champions por conta do vice-campeonato. O até então tetracampeão PSV (4º) e o Ajax (3º) terão de se contentar com a disputa da Liga Europa.