Dupla (im)previsível

25 03 2009
Nessa temporada européia, algumas reviravoltas e surpresas: A Bundesliga mais disputada dos últimos anos, times ameaçando a supremacia do Lyon na França, a Premier League se emparelhando novamente após duas derrotas consecutivas do Manchester United. No entanto, dois jogadores quase sempre se destacam após as rodadas do fim-de-semana: Messi e Ibrahimovic fazem gols atrás de gols. Um mais plástico do que o outro. E conduzem suas respectivas equipes rumo à conquista dos nacionais como principais protagonistas de tais feitos.

Soberana no Calcio, a Inter ainda tenta se adaptar ao estilo Mourinho de jogar. A inconstância de um parceiro de ataque e jogos pouco efetivos dos meias de criação deixam a Inter cada vez mais dependente de Ibrahimovic. E o sueco corresponde as expectativas interistas, com a equipe sobrando diante dos rivais. Artilheiro do Italiano com 19 gols – ao lado de Di Vaio, do Bologna -, Ibra contabiliza um golaço atrás de outro. Contra a lanterna Reggina, neste final de semana, o camisa oito marcou mais dois tentos, o último deles um verdadeiro golaço. Após se livrar de três marcadores, tocou por cima do arqueiro Puggioni. Um gol de categoria e inteligência, características que vem melhorando no sueco, principalmente após sua transferência da Juventus para a Inter, da qual se tornou o principal jogador dos últimos anos.

O caso de Messi é ainda mais complexo e interessante. O argentino se sobrepõe aos outros bons jogadores do Barcelona de Pep Guardiola. O técnico monta um esquema que prima pela ofensividade: são 84 gols em 28 partidas, numa impressionante média de três gols por partida de La Liga. Além do letal tridente formado por ele, Henry e Eto’o – responsável por 59 dos 84 gols da equipe catalã – ainda conta com o auxílio de meio-campistas versáteis e talentosos. Mesmo com a versatilidade e disciplina de Xavi, o oportunismo e rapidez de Eto’o e a calma e inteligência de Henry, Messi agrega muita noção tática, rapidez, habilidade e imprevisibilidade. No massacre do Barcelona frente ao Málaga por 6-0, um gol com a marca do camisa 10: velocidade, habilidade e rapidez de raciocínio frente a zaga adversária.

Vitima do isolamento frente ao arrumado Manchester United, Ibrahimovic não pôde evitar o fiasco da Inter na Champions League, mesmo aparecendo bem nas duas partidas. Já Messi, auxiliado pelo excelente momento do Barça, pode ser o diferencial na luta dos catalães contra a supremacia inglesa na Champions. O teste contra o Bayern promete. E mesmo com alguma disparidade entre Inter e Barcelona como conjuntos, Messi e Ibrahimovic formam, neste momento, a dupla de atacantes mais letais e imprevisíveis do mundo neste momento. Tanto é que os dois atacantes brigam pela Bola de Ouro, concedida ao maior artilheiro da temporada européia. E vão brigar também pela coroa de melhor do planeta, na posse de um irregular Cristiano Ronaldo em 2008/09.





Essencial

18 03 2009
Duas coisas faltaram ao Chelsea da era Felipão: o faro de gol do atacante Drogba – vivia as turras com o brasileiro – que marcou três gols e foi titular nas seis partidas pós-Felipão e a versatilidade do meio-campo Essien. Sua volta aos campos, após seis meses se recuperando de uma contusão no joelho, não poderia acontecer da melhor forma: duas partidas – Juventus e Manchester City – e dois gols anotados.

Mesmo não tendo as características do meia goleador, o ganês desenvolve importante função no elenco dos Blues, trazendo o equilíbrio defensivo, iniciando a transição do ataque com qualidade e chegando como elemento surpresa vindo de trás, como nos gols que marcou em suas últimas aparições. Além da excelência na marcação e na boa transição ao ataque, também atua bem quando é utilizado como ala direito.Muito se fala em versatilidade dos volantes como chave para se montar um bom time no futebol moderno. Como o próprio São Paulo com Jean e Hernanes ou mesmo o Cruzeiro de Ramires. Jogadores com bom poder de marcação, excelente passe e ótimo arremate. Tanto que no caso de Hernanes e Ramires, chegam até a atuar mais como meias de ligação do que propriamente como volantes. Algo que falta na estática e engessada dupla de volantes de Gilberto Silva e Felipe Melo/Josué, com a qual Dunga simpatiza tanto.

Voltando a Essien, o ganês será um dos pilares do esquema de Hiddink no Chelsea junto a segurança de Cech, o toque refinado de Lampard e os gols de Drogba. Mesmo não apresentando um futebol vistoso, o Chelsea vai fazendo da eficiência sua marca registrada desde que a troca de técnicos aconteceu, já que nos sete jogos do Chelsea de Hiddink, os Blues não marcaram mais de dois gols por partida, mas contabilizam seis vitórias e um empate.





English Champions League

15 03 2009
Após os resultados dos confrontos válidos pelas oitavas de final da Champions League, algo fica incontestável: a supremacia inglesa na mais importante competição entre clubes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo, todos os clubes ingleses que iniciaram a fase de grupos chegam vivos até as quartas-de-final. Novamente, 50% da Champions é dos ingleses. Nos confrontos com os campeões das principais ligas rivais à Premier League, eliminação relativamente fácil.
Nos confrontos contra o bicampeão espanhol Real Madrid, o Liverpool não encontrou maiores dificuldades. A maior tradição do Real – nove títulos contra cinco dos Reds – não foi suficiente frente a equipe comandada por Rafa Benítez, uma especialista nos confrontos eliminatórios nesta década. E o Real Madrid amargou a quinta eliminação consecutiva na fase de oitavas, mostrando um futebol apático, mesmo com a melhora de produção da equipe na liga espanhola após a chegada de Juande Ramos. Já a tricampeã Inter de José Mourinho sucumbiu facilmente diante do atual campeão Manchester United. Mesmo sem um largo placar agregado no confronto (2-0), o Manchester mostrou grande superioridade frente aos interistas. Na primeira partida disputada no Giuseppe Meazza, os Red Devils só não saíram com a vitória graças a brilhante atuação do goleiro Júlio César. Em Old Trafford, a Inter tentou segurar o ímpeto dos ingleses entrando apenas com um atacante, apostando no embate entre meio-campistas para equiparar o encontro. No entanto, o ímpeto do United foi avassalador e a Inter só não saiu goleada graças a Júlio César, novamente.

O equilíbrio entre Chelsea e Juventus foi grande nas duas partidas. E mesmo com Guus Hiddink iniciando agora seu trabalho nos Blues, conseguiu levar o confronto nos detalhes. O mais frágil e que atravessa fase mais delicada entre os ingleses nesse momento, o Arsenal, ainda conseguiu arrancar uma dramática classificação nos pênaltis. Mas desfalcado de seu principal jogador – Fabregas volta aos campos em abril – e com a má fase de Adebayor, os jovens do Arsenal torcem pela sorte nas bolinhas para enfrentarem um adversário mais frágil – neste caso, Porto ou Villarreal – para seguir em frente. Com a classificação dos quatro ingleses, os ingleses atestam sua supremacia nas quartas-de-final pelo terceiro ano consecutivo: foram três clubes em 2006/07 e os quatro que iniciaram a competição em 2007/08 e 2008/09, contrastando com o único inglês presente em 2005/06 – o Arsenal, derrotado na final contra o Barcelona.Aliás, penso que o Barcelona é o único time capaz de enfrentar a força dos ingleses de igual para igual. Apesar de não ser uma equipe equilibrada como um Manchester United, o Barça joga o futebol mais vistoso entre os europeus, com o tridente Messi-Henry-Eto’o em grande fase e com diversas opções de meio campo, como Xavi, Keita, Yaya Touré, Iniesta, Hleb e Busquets. Mas a defesa é o ponto falho dos catalães – a segunda mais vazada entre os oito finalistas, com nove gols -, que ainda possuem no gol um inconstante Victor Valdés. O Bayern é outro que se apresenta um baita pedregulho aos ingleses. Melhor ataque entre os sobreviventes – 24 gols, 12 nos últimos dois jogos – o tridente Ribéry-Toni-Klose é o ponto forte da equipe. Mas se confrontar os ingleses, os bávaros estarão diante do primeiro adversário mais qualificado nesta Champions, já que o caminho do Bayern até aqui na competição foi tranquilo.

Enquanto isso, na Itália…

Os clubes italianos não conseguiram classificar nenhum representante para esta fase desta Champions. O mau desempenho dos clubes italianos nesta fase piora gradualmente: três representantes em 2005/06, dois em 2006/07 e apenas um em 2007/08. O enfraquecimento dos clubes locais – apesar do título do Milan em 2006/07 com contribuição decisiva e brilhante de Kaká – aconteceu após o escândalo do Calciocaos que explodiu no futebol italiano, em 2006. Tanto é que na Copa UEFA, há apenas um representante italiano nas oitavas – a Udinese, que venceu o primeiro confronto contra o atual campeão Zenit por 2-0 -, já que Fiorentina, Milan e Sampdoria foram eliminados no início do mata-mata da competição (por Ajax, Werder Bremen e Metalist/UCR, respectivamente). O fortalecimento da Inter e o enfraquecimento dos outros grandes – ao menos, por ora – contribuíram para a queda do nível técnico do Calcio. E fora da Itália, a Inter vem colecionando diversas decepções quando falamos em Champions, mesmo com bons times.

A chance de pelo menos dois ingleses nas semifinais é enorme, dependendo do sorteio dos confrontos que será realizado no próximo dia 20 de março. E conforme a dança das bolinhas, a chance de uma segunda final inglesa consecutiva na Champions aumenta consideralvelmente.





Renascimento

12 03 2009
Não, este não é mais um texto sobre a nova volta de Ronaldo, mas também envolve um atacante de camisa nove, com feitos bem mais modestos no futebol que o Fenômeno. Há pouco mais de um ano, após entrada violentíssima do zagueiro Martin Taylor, o brasileiro naturalizado croata Eduardo da Silva teve a contusão mais grave de sua carreira: fraturou gravemente a perna na altura do tornozelo, numa das imagens mais fortes ocorridas no futebol em 2008. À época, o camisa nove do Arsenal poderia até ter a perna amputada, o que só não aconteceu graças a rápida e eficiente intervenção da equipe médica do clube, ainda dentro de campo na prestação dos primeiros socorros. A grave contusão custou a Eduardo a última Eurocopa, da qual seria fatalmente titular na seleção croata comandada por Slaven Bilic.Após uma lenta  recuperação de quase um ano, o atleta de 26 anos retornou aos Gunners oficialmente em 16 de fevereiro, a pouco mais de uma semana de seu aniversário, em partida válida pela FA Cup (Copa da Inglaterra) diante do Cardiff. Marcou dois gols – um de cabeça e outro em penalidade sofrida por ele mesmo -, na vitória por 4-0. No entanto, acabou distendendo um músculo da perna, foi substituído e ficou mais três semanas no departamento médico. Refeito da nova lesão, voltou ao time comandado por Arsène Wenger novamente em uma partida da Copa da Inglaterra, desta vez diante do Burnley neste último domingo. Atuando com a equipe recheada de reservas – visando a partida deste meio de semana contra a Roma, pela Champions – Eduardo entrou desde o começo da partida, com a tarja de capitão. Apesar da fragilidade dos Clarets – na sétima posição da segunda divisão inglesa – Eduardo atuou bem a vontade e foi um dos destaques da vitória por 3-0, marcando um golaço de “parafuso” no ângulo do goleiro Jensen. Explico: apesar de já ter marcado um gol com a perna que havia sido contundida – a esquerda -, o tento foi através de pênalti. No lance contra o Burnley, Eduardo pegou o cruzamento de Song de primeira com a parte de fora do pé esquerdo, quando o mais lógico seria virar o corpo para “chapar” a bola ou mesmo chutar de direita. justo na parte afetada pela fratura, até soando como uma resposta para quem ainda duvidava de sua condição de jogo, pois o chute foi totalmente consciente.

A volta ainda é gradual. Mas com Eduardo com ritmo de jogo, será de grande valia ao Arsenal, que ainda luta para prosseguir na Champions (venceu o primeiro duelo das oitavas contra a Roma por 1-0) e para buscar uma colocação melhor na Premier League, onde faz campanha irregular e é apenas quinto, atrás do Aston Villa. Já que a onda agora é falar de Ronaldo e o início de seu terceiro “renascimento”, nada como nos espelharmos no caso de Eduardo, que mostra mais um exemplo de superação.

Gol de “parafuso” marcado por Eduardo da Silva contra o Burnley





Fim da linha?

1 03 2009
Carlo Ancelotti nunca foi unanimidade entre torcedores e imprensa do mundo do futebol, mesmo com um currículo de respeito à frente do Milan: um Campeonato Italiano (2003/04), uma Copa da Itália (2002/03), uma Supercopa da Itália (2003/04), duas Champions League (2002/03 e 2006/07) e duas Supercopas Européias (2003 e 2007). Os mais críticos alegavam que faltava um “algo” a mais na equipe, que por vezes primava pelo excesso de cautela defensiva – o que certamente custou o título da Champions 2004/05, perdido para o Liverpool após ter conquistado uma vantagem de 3-0 – para citar o exemplo mais clássico e conhecido.

Os recém-completados sete anos à frente do Milan – estreou em novembro de 2001 – podem estar chegando ao fim, assim como a já esgotada paciência do torcedor rossonero. O Milan conseguiu ser eliminado em casa para o Werder Bremen após conquistar vantagem de 2-0 no primeiro tempo. Em dez minutos, os dois gols de Pizarro decretaram o fim da Copa da UEFA frente a um time que, novamente, pecou pela burocracia e falta de criatividade. Sem Kaká e Ronaldinho – ambos contundidos – o experiente time do Milan não deu conta do recado, vivendo apenas do bom futebol do jovem Alexandre Pato. E para ser justo, uma aposta lapidada por Ancelotti, em um de seus poucos acertos nos últimos tempos.Eliminado da Champions 2007/08 – a última que disputou – pelo jovem Arsenal em pleno San Siro, quinto colocado do Campeonato Italiano da mesma temporada após perder a vaga para a Fiorentina, Ancelotti balançou, mas não caiu. Ainda assim, o Milan trouxe poucos reforços de peso – pra valer mesmo, apenas Ronaldinho Gaúcho – e repetiu os erros dos últimos fracassos: muita cautela e pouca dinâmica. Mesmo com o excesso de jogadores experientes, novamente faltaram nervos para a equipe comandada por Ancelotti, eliminada nos dezesseis avos de final da segunda competição intercontinental em importância na Europa, na qual o Milan pintou como um dos grandes favoritos.Onze pontos atrás da Inter, o terceiro lugar neste Calcio mostra que o Milan brigará mesmo por uma vaga na próxima Champions em pé de igualdade com Fiorentina e Roma – que faz um campeonato de recuperação e já está a cinco pontos dos rossoneros. Muito pouco para o segundo maior campeão Italiano e da Champions League, que ultimamente só conseguiu picos de aparição na imprensa por tentar recuperar jogadores como Ronaldo, Ronaldinho e Beckham. Com Maldini se aposentando ao final desta temporada e a novela interminável da compra de Beckham, já passou da hora do manda-chuva Silvio Berlusconi fazer uma faxina entre os mais experientes do elenco – especialmente entre goleiros e defensores, ponto crítico do time – terminando no comando na equipe, onde é claro que o treinador italiano precisa respirar novos ares, como já foi dito no texto que escrevi no blog Opinião FC à época da eliminação do Milan pelo Arsenal. Renovar não é apenas preciso. É necessário, para que o Milan possa voltar às cabeças novamente.