Paredões

27 02 2009
Júlio César faz mais uma defesa no jogo contra o Manchester United: o arqueiro vive grande fase e firma-se como um dos melhores do mundo em sua posição.

Se a Inter ainda aspira chances para passar à próxima fase da Champions League, o responsável direto é o goleiro Júlio César. Ratificando a sua excelente fase na Inter de Mourinho e no Brasil de Dunga, o arqueiro defendeu pelo menos três bolas dificílimas diante do Manchester United, nesta terça-feira.

Se no Calcio a Inter consegue se impor – mesmo não atuando bem em algumas oportunidades -, na Champions a equipe parece, por vezes, se apequenar diante da responsabilidade de conquistar um título que não vê há mais de 30 anos. Jogando no San Siro, a equipe nerazzurri foi mera espectadora ao ver os Red Devils com amplo domínio da partida, com um Cristiano Ronaldo criando e definindo jogadas perigosas até com alguma liberdade. Mas o quarteto ofensivo dos mancunianos parou em Júlio César, que assegura seu nome como um dos principais goleiros da atualidade, ao lado da Casillas e Van der Sar. Prestes a completar 30 anos, Júlio César parece chegar ao auge de sua carreira e caminha firme para ser o titular da baliza brasileira na Copa do Mundo de 2010. Com todos os méritos, é um dos “intocáveis” na equipe de Dunga.

Do outro lado, estava o veterano Van der Sar, que pouco foi incomodado na partida apesar do aumento nas ações da Inter no segundo tempo. Prestes a bater o recorde europeu de minutos sem ter a meta vazada, o holandês não é do tipo espalhafatoso. Como na partida desta terça onde novamente foi auxiliado pela fortíssima defesa do United – a menos vazada da Champions e da Premier League -, seguramente a melhor da Europa. Não teve necessidade de fazer defesas difíceis, mas é peça importante quando os zagueiros do Manchester não previnem os ataques adversários, como pôde ser visto na final do último Mundial da FIFA, frente a LDU. O que difere Van der Sar de Júlio César é que o brasileiro vem sendo muito mais exigido, e por conseqüência, acaba se destacando mais. Mas trata-se de dois dos mais técnicos goleiros da atualidade e que podem decidir a segunda parte do confronto daqui a duas semanas, em Old Trafford.





Ícones em extinção

20 02 2009
O gol 309 ratifica Raúl como o maior artilheiro da história do Real: marca que dificilmente será batida.

Toda equipe de grande porte possui uma era vitoriosa, marcante, inesquecível. Normalmente relacionadas a feitos do passado, numa era em que o futebol era mais romantizado, ofensivista e menos mercadológico. Naturalmente, os ídolos continuarão existindo, mas o ícone – o jogador que encarnava em campo o espírito do clube aliado a era vencedora – foi ficando cada vez mais raro com o passar das décadas. E nesse começo de século XXI, podemos estar testemunhando a extinção desse tipo de atleta, onde os últimos jogadores que carregam essa estirpe estão mais próximos do final de sua carreira como atletas de futebol.

Já imortalizado na história do Real Madrid, Raúl Gonzalez Blanco tem o estereótipo do ícone. Maior ídolo da equipe desde o hispano-argentino Alfredo Di Stéfano, na década de 60, Raúl representa a era de glórias contemporâneas da equipe merengue. Em quase 15 anos de carreira futebolística profissional – todos dedicados ao Real Madrid – o camisa sete conquistou seis Ligas Espanholas, três Champions League, quatro Supercopas da Espanha e dois campeonatos intercontinentais, além de inúmeros prêmios e marcas individuais: é o quinto atleta com mais jogos em La Liga (505) e o sexto maior artilheiro (216 gols, 35 atrás de Telmo Zarra, maior artilheiro da competição). É maior artilheiro de todos os tempos em competições européias (66 gols) e quebrou o recorde pertencente a Di Stéfano no último domingo, no doblete frente ao Sporting Gijón como o maior artilheiro do clube de todos os tempos, com 309 tentos (como mostra o infográfico do Diário Marca).

Curiosamente, o ídolo merengue é oriundo da categoria de base dos rivais do Atlético de Madrid, que perderam o prodígio jogador por conta de dificuldades financeiras. Debutou na equipe com apenas 17 anos e conforme foi se firmando como uma das principais peças, teve a difícil missão de substituir outro ídolo do Real com a tarja de capitão: o zagueiro Fernando Hierro. Aos 31 anos, nenhuma expulsão e histórico de poucas contusões graves, “Raúl Madrid” – como é carinhosamente chamado pelos torcedores – caminha firme para chegar mais perto de outras marcas de Di Stéfano, indubitavelmente o maior ídolo que envergou a camisa merengue. Jamais Raúl poderia ter sua técnica comparada a de Don Alfredo – apesar de se tratar de um bom jogador. No entanto, ao falarmos de Real Madrid, podemos equipará-los em importância histórica.

Jogadores como Raúl são cada vez mais raros em clubes e os poucos que existem, já beiram ou passaram dos trinta anos: Paolo Maldini, 40 anos – 25 deles dedicados exclusivamente ao Milan. Nunca nenhum outro atleta envergou tanto a camisa do Milan (mais de 1000 partidas) e defendeu a Azzurra numa Copa (2252 minutos, recorde absoluto); Javier Zanetti, 14 anos de serviços prestados a Inter; Francesco Totti e Alessandro Del Piero, sendo que Delpi – maior número de jogos e maior artilheiro com a camisa bianconera – ajudou a reerguer a Juve de uma das páginas mais negras de sua história: a queda para a Segunda Divisão italiana, por conta do escândalo do Calciocaos; Carles Puyol (Barcelona), Ryan Giggs (Manchester United) e Steven Gerrard (Liverpool), todos ícones recentes de fases vitoriosas de suas equipes. No Brasil, cada vez mais colônia no cenário clubístico, Marcos e Rogério Ceni – ambos goleiros – se adequam a um perfil que se é cada vez mais raro no exterior, certamente morrerá por aqui quando os dois não puderem mais envergar as camisas de Palmeiras e São Paulo.

O processo é irreversível. O futebol das cifras estratosféricas e dos mecenas que ambicionam montar esquadrões vai na contramão desse tipo de jogador, onde a identificação fala mais alto do que qualquer outra coisa. Por isso, temos que nos deleitar ao ver esses atletas continuarem quebrando marcas do passado. e do presente Aproveitar enquanto podemos ver ao vivo esses jogadores em ação. Porque essa próxima geração de craques que está se consolidando como grandes atletasno futebol contemporâneo – Cristiano Ronaldo, Messi, ou mesmo Kaká – dificilmente terão suas feições associadas a história um clube, tal qual ainda ocorre hoje em dia, como a dos exemplos citados acima.





Made in Brazil

17 02 2009
Após nove anos no futebol belga, o paulista Igor de Camargo, 25, fez sua estréia no último dia 11 pelos Diables Rouges, diante da Estônia

Que o jogador brasileiro é tipo exportação, todo mundo sabe. Cada vez mais tratado como mercadoria, o jogador brasileiro – mesmo com a falta de profissionalismo e aplicação tática de alguns – quase sempre é investimento garantido, assim como o pau-brasil, a cana-de-açúcar, a borracha e o café já foram um dia. Em 2008, as transferências de atletas brasileiros ao exterior bateram recorde: 1176 jogadores rumaram para as diversas partes do globo, mais que o dobro em relação há dez anos atrás (530) e treze vezes maior do que há 30 anos (87).

Naturalmente, alguns desses jogadores acabam fazendo carreira no exterior e acabam se incorporando ao país de destino. O sucesso fora do Brasil quase sempre traz como conseqüência a dupla nacionalidade e os pedidos de defender a respectiva seleção nacional. Maior importador de jogadores – até pela facilidade do idioma – Portugal foi responsável por 209 contratações no ano passado. E como conseqüência, dois jogadores figuram com constância na seleção nacional: o zagueiro Pepe e o meia Deco. E em processo de naturalização, está o atacante Liédson, do Sporting. Com passagem destacada no Brasil – Coritiba, Flamengo e Corinthians -, o Levezinho rumou aos Leões em 2003, sendo artilheiro do campeonato luso por duas vezes (2004/05 e 2006/07) e já é o maior artilheiro estrangeiro da história do Sporting, marca atingida em janeiro deste ano ao marcar o gol de número 159, com os três gols marcados diante do Paços de Ferreira. Algumas vezes teve seu nome cotado para defender o Brasil, mas nunca foi lembrado pelos técnicos aqui passaram. Carlos Queiróz, treinador da seleção portuguesa, espera ansiosamente que a situação de Liédson se regularize para convocá-lo, visto que Portugal tem graves problemas no ataque de sua equipe.

Liédson provavelmente seguirá os caminhos de Roger Guerreiro (Polônia), Eduardo (Croácia) e Igor de Camargo (Bélgica), citando exemplos mais recentes. A exceção de Roger, naturalizado com pouco tempo no futebol polonês, Eduardo e Igor tiveram sucesso em times importantes de seus respectivos países – Dínamo de Zagreb e Standard de Liége – o que trouxe o convite de naturalização. Roger e Eduardo firmam-se como peças importantes de seus selecionados, enquanto Igor foi chamado pelo técnico René Vandereycken para a seleção belga pela primeira vez no jogo do último 11 de fevereiro contra a Estônia. Atuando no futebol belga desde 2000, o atacante paulista é fluente em francês e holandês e fez toda a carreira no futebol belga.Claro que deve haver critérios estabelecidos pela FIFA sobre o tema, como o “recrutamento” de jogadores para atuar em troca de dinheiro, como já acena com a possibilidade os petrodólares árabes, afim de turbinar suas seleções. Mas a identificação e o grande tempo de convivência em seus países de destino pode e deve ser premiada com a possibilidade de defender as cores do país que adotaram e os adotou. Vejo como uma espécie de gratidão.





Game over, Felipão

14 02 2009
Sem os devidos reforços e derrotas para os principais rivais ajudaram a encurtar a missão de Felipão no Chelsea, que durou apenas sete meses

O empate em Stamford Bridge para o Hull City foi a gota d’água para o mecenas do Chelsea, Roman Abramovitch, dar cartão vermelho para Luiz Felipe Scolari do comando dos Blues. Mesmo com todas as dificuldades da adaptação e implementação de sua filisofia no clube londrino, pareceu uma decisão precipitada. Primeiro, porque o Chelsea – leia-se Abramovitch – atravessa dificuldades financeiras, e por isso, pouco reforçou/renovou o seu elenco. Apenas Deco, Bosingwa, Mineiro e Quaresma – os últimos dois a custo zero – chegaram em 2008/09, em um elenco que sofreria importantes perdas, como o polivalente Essien e Joe Cole pela temporada inteira. Além disso, teve problemas com alguns medalhões da equipe, o que vinha o atrapalhando em uma de suas principais virtudes nos grupos vencedores que construiu: fechar o grupo. Joe Cole, Drogba e Anelka não bateram diretamente contra Felipão, mas as reclamações constantes pela titularidade atrapalharam o foco do elenco.

Em pouco mais de sete meses no comando dos Blues, Felipão teve aproveitamento de 62 %. Em 36 jogos, foram 19 vitórias, dez empates e sete derrotas. No entanto, dois foram os fatores – tecnicamente falando – que contribuíram decisivamente para que Felipão e o Chelsea vissem o título inglês mais distante: o mau aproveitamento dos jogos em casa e o péssimo aproveitamento nos clássicos, primordiais para quem quer ser campeão inglês. Em seus domínios, o Chelsea venceu apenas seis partidas das 13 disputadas, com cinco empates e duas derrotas. Na época de sua primeira derrota – na nona rodada da Premier League para o Liverpool – o Chelsea viu ser quebrado uma série de 86 jogos sem derrota em casa em um período de quatro anos. E nos clássicos, Felipão e o Chelsea não conseguiram uma vitória sequer – duas derrotas para o Liverpool, uma para o Arsenal e uma derrota e um empate frente ao Manchester United.O quarto lugar na Premier League – 49 pontos, sete atrás do Manchester United, que tem uma partida a menos – a irregular campanha na Champions e a eliminação na Copa da Liga Inglesa para o Burnley, da segunda divisão, fizeram com que a torcida e boa parte da imprensa inglesa pedisse a cabeça do brasileiro, mesmo com os Blues terminando o primeiro turno na cola do então líder Liverpool, terminando a primeira parte do campeonato com o melhor ataque (40 gols) e a melhor defesa (nove gols sofridos).

No entanto, desde que Felipão começou a treinar a Seleção Brasileira e após a Copa de 2002, a portuguesa, ele se mostrou um técnico de trabalhos a longo prazo. Ou quem não se lembra do episódio da derrota para Honduras, na Copa América de 2001, disputada na Colômbia, por 2-0. Ainda assim, classificou-se com dificuldades para a Copa de 2002, e deixou Romário fora do elenco e ainda assim, sagrou-se campeão. E na época em que assumiu Portugal, causou indisposição com jogadores, torcida e imprensa lusa bancando Deco em Portugal e deixando o ídolo Vítor Baía fora dos planos para a Euro que se avizinhava, a qual seria disputada na própria terrinha. Os resultados da aposta em Felipão, a longo prazo, vieram na forma de uma Copa do Mundo e um vice da Eurocopa.

A demissão de Felipão nos faz repensar as reais dimensões da crise pela qual o Chelsea atravessa: os Blues devem pensar seriamente na renovação de seu milionário – e neste momento insuficiente elenco – se quiserem continuar cobiçando seu principal objetivo: a Champions League. Esse será o desafio do próximo técnico: foco total na Champions e mover os pauzinhos para uma renovação profunda no elenco.





Reflexos da crise

8 02 2009
Os efeitos da crise mundial também tiveram reflexos no rico futebol da Europa. O fechamento da janela de transferências de inverno mostrou cifras modestas em relação ao início da temporada, onde as dez maiores transferências não saíram por menos de 20 milhões de euros. Já nessa última janela de negociações, apenas duas transferências atingiram a casa de 20 milhões – Lassana Diarra e Klaas-Jan Huntelaar, ambos contratados pelo Real Madrid. Alguns grandes optaram pelos empréstimo sem desembolsar grandes cifras de bons jogadores, como fez o Chelsea com Quaresma e o Milan com Beckham.Além da perda de boa parte da receita das finanças dos donos de clube, como Abramovitch, alguns clubes da rica Premier League sofreram com desfalques nas finanças: o Manchester United não renovará o patrocínio de camisa com os americanos da AIG em 2010 – seguradora que está recebendo ajuda governamental por conta da crise – no valor de 15 milhões de euros por ano e o West Ham perdeu o patrocínio da XL Holidays no valor de seis milhões de euros, passando quase quatro meses sem patrocínio de camisa. Assinou com a asiática Sbobet, especializadas em apostas, por metade do patrocínio anterior. O Manchester United se abalou pouco por ter uma das marcas mais valiosas no futebol enquanto os Hammers tiveram que se desfazer de seu principal jogador, o galês Craig Bellamy, vendido ao City por 15 milhoões de euros. Além disso, o seu proprietário, o islandês Bjorgolfur Gudmundsson, colocou a equipe a venda, já que a Islândia foi um dos principais países afetados pela crise econômica, por se tratar de um país majoritariamente composto por bancos. Gudmundsson – um dos donos do Landisbank – perdeu muito capital e viu o banco em que invetia ações falir e colocou os Hammers à venda apenas dois anos depois de sua aquisição para minimizar os prejuízos.

Ainda com todo o cenário contrário, Tottenham e Manchester City investiram massivamente em reforços, já que ambos haviam investido muito no início da temporada, mas viveram às voltas com a zona de rebaixamento desta Premier League. Dos dez reforços mais caros do mercado de inverno, seis pertencem a dupla e oito são ingleses (os outros dois foram o Arsenal, com Arshavin e o West Ham, com Nsereko). Os Spurs desenbolsaram vultuosos 47 milhões de euros – repatriou Defoe e Robbie Keane e comprou o hondurenho Wilson Palacios junto ao Wigan – e o City trouxe Bellamy, Nigel de Jong, Given e Bridge, que custaram a bagatela de 57 milhões de euros, pouco mais da metade do valor que os Citizens ofereceram ao milanista Kaká para trocar a Itália pela Inglaterra, no que seria a maior transferência da história do futebol. Porém, o brasileiro não se seduziu com os dólares árabes do dono do City e ficou no Milan.

Recentemente, as cotas da Premier League foram renovadas por mais três temporadas. A inglesa BSkyB (cinco pacotes, 115 jogos) e a irlandesa Setanta (um pacote, 23 jogos) fecharam as exclusividades de transmitir a principal liga nacional da Europa por 2,04 bilhões de euros, valor pouco maior que a cota anterior, de 1,94 bilhões de euros. Além dos bilhões das TVdesse montante, a BBC inglesa garantiu sua parte da cota – que dá direito ao principal jogo da rodada, mais o resumo das outras partidas – por 188 milhões de euros. No entanto,a euforia pelo aumento das cifras foi podada devido a desvalorzação da libra esterlina – moeda corrente na Inglaterra – frente ao Euro, fato esse que freou algumas negociações e fará com que o aumento real na parcela repassada aos clubes – 56% do total somado ao respectivo desempenho dos clubes na liga – seja bem menor do que o esperado.

Mesmo com algumas limitações e extravagâncias, a crise pode evitar o estouro de uma nova “bolha financeira”, como a que acometeu o futebol europeu no início desta década, a qual teve no Leeds United sua vítima mais conhecida. Após chegar às semifinais da Champions League em 2000/01 contra o Valencia, os Whites quebraram devido aos altos investimentos no elenco – de nomes como Robbie Keane, Robinson, Alan Smith e Rio Ferdinand – e em apenas seis anos sairam dos holofotes europeus rumo à terceira divisão inglesa.

As dez maiores transferências da janela de inverno na Europa (segundo o site Transfermarkt):

Klaas-Jan Huntelaar – Ajax para o Real Madrid, 20.000.000 €

Lassana Diarra – Portsmouth para o Real Madrid, 20.000.000 €
Nigel de Jong – Hamburg para o Manchester City, 19.500.000 €
Robbie Keane – Liverpool para Tottenham Hotspur, 16.700.000 €
Andrey Arshavin – Zenit para o Arsenal, 16.500.000 €
Jermain Defoe – Porsmouth para o Tottenham Hotspur, 16.400.000 €
Craig Bellamy – West Ham para oManchester City, 15.500.000 €
Wilson Palacios – Wigan para o Tottenham Hotspur, 15.000.000 €
Wayne Bridge – Chelsea para o Manchester City, 13.000.000 €
Savio Nsereko – Brescia para o West Ham, 11.000.000 €