Por enquanto, um rascunho

8 01 2009
Em alta, Grafite vira garoto-propaganda de empresa de cartão de crédito: Mesmo podado por algumas contusões, o brasileiro é a principal peça do Wolfsburg nesta temporada.

Nessa inconstância de se encontrar um camisa nove para a Seleção, muitos jogadores medianos/bons são testados por Dunga ou ventilados pela imprensa: Luis Fabiano – que apesar da recente fase irregular, é o camisa nove do Brasil graças as suas boas atuações com a amarelinha; Amauri, que não sabe se defende o amarelo canarinho ou a Azzurra; Vagner Love teve suas chances e não convenceu, mas segue arrebentando na Rússia e seu destino aponta para um centro maior; Opções mais jovens e promissoras como Nilmar e Pato podem começar a maturar em breve. Mas há um nome que quase ninguém se lembra, que vem galgando seu lugares entre os goleadores brasileiros na Europa desta temporada: o “operário Grafite”.

Se o Wolfsburg não faz campanha brilhante na Bundesliga (nono lugar, 26 pontos), Grafite já alcança o posto como o destaque do time e um dos melhores atacantes do futebol alemão na atualidade. Mesmo com algumas contusões durante o primeiro turno – vencido pelo surpreendente Hoffenheim – Grafite manteve ótima média quando esteve em campo: nada menos que 11 gols em 11 partidas, o que lhe dá o terceiro posto na tabela de artilheiros da liga alemã.

Com passagens pelo Santa Cruz e Grêmio, estourou no Brasil jogando pelo bom time do Goiás de 2003. Naquele campeonato, o então vencedor da Bola de Prata chamou a atenção do São Paulo, que trouxe um pacote de reforços daquele time esmeraldino, composto além de Grafite, por Josué e Fabão – que formariam a base do São Paulo campeão da Libertadores e do Mundial de clubes da FIFA em 2005, da qual foi uma das principais peças.

Transferido ao Le Mans no início de 2006, Grafite obteve algum destaque na Ligue 1, chamando a atenção dos Wolfes em agosto de 2007 por cerca de 8milhões de euros. Mesmo em um time médio da Alemanha, o camisa 23 conseguiu obter destaque – 35 jogos na Bundesliga, 22 gols – convertendo-se na principal peça da equipe dirigida por Felix Magath.

Claro que é euforia pedir uma vaga na Seleção para Grafite. Mas a trajetória européia do jogador se assemelha a de Amauri, que passou por uma série de equipes menores da Itália até estourar no mediano Palermo e chegar até a Juventus, com todos os méritos. Se Grafite – de 29 anos, contra 28 de Amauri – continuar mantendo a boa média, atuar com mais regularidade e sem contusões, logo ele poderá chegar a uma equipe de maiores pretensões. E o operário Grafite, apesar de não ser um atacante brilhante, joga com seriedade, tem boa velocidade e bom jogo aéreo. Logo, poderá se tornar uma boa opção e mais cogitado.





Uma nação, uma seleção

4 01 2009
Na faixa, em basco: uma nação, uma seleção, uma federação. Sentimento comum nas diversas regiões autônomas espanholas
A discussão é antiga e as motivações transcendem o campo esportivo. Povos que existem há centenas e centenas de séculos na região da Península Ibérica, tem sua própria língua, cultura e até mesmo gozam de alguma autonomia administrativa, mas oficialmente não possuem um território que seja reconhecidamente pela comunidade social com o conceito de Estado/Nação, por serem parte do território de outros países, geograficamente falando.
As acaloradas discussões acontecem principalmente no território espanhol, uma monarquia unificada mas que é formada por uma série de comunidades autônomas, o que causa a descentralização do poder no país. Das 17 comunidades que formam a Espanha, quatro têm as chamadas Nacionalidades Históricas – reconhecidas pela Constituição de 1978, a primeira depois da chamada transição espanhola após o governo ditatorial de Francisco Franco -, o que lhes garante maior autonomia em relação a outros territórios.E os territórios que gozam de tal status causam o motivo da polêmica discutidas neste post: Galícia, País Basco, Catalunha e Andaluzia. Por não poderem reunir suas seleções no calendário FIFA de amistosos, as federações locais organizam amistosos de fim de ano para brindar os torcedores, normalmente contra seleções filiadas à FIFA, aproveitando a folga de fim de ano dos clubes espanhóis. Em 2008, a seleção andaluz enfrentou o Peru (2-2), a Galícia jogou contra o Irã (3-2) e a Catalunha – liderada por Bojan (Barcelona) e Verdú (La Coruña) bateu os colombianos por 2-1 no Camp Nou. No País Basco, o amistoso frente ao Irã foi cancelado por uma questão de nomenclatura. Os bascos – autônomos mais radicais na questão separatista, externada nas ações terroristas do ETA – queriam atuar como “Euskal Herria” (literalmente “território basco”, que engloba regiões na fronteira entre Espanha e França). No entanto. os próprios cartolas – pressionados políticamente – optaram por Euskadí, o que compreenderia apenas a região basca correspondente à Espanha. Foi o estopim para protestos encabeçados pelos próprios jogadores, em sua maioria pertencentes ao Athletic Bilbao e a Real Sociedad, reconhecidos como clubes-símbolo da causa basca. Principalemente o Athletic, onde só jogadores de origem basca podem envergar suas cores.O primeiro ministro espanhol, José Luiz Zapatero, já se manisfestou contra a atuação das regiões autônomas em competições e amistosos oficiais: “É impossível pensar numa competição internacional, num confronto entre uma seleção de uma região autônoma e o resto da Espanha”. Mesmo com oposição de boa parte da base governista, os autônomos conseguiram algumas vitórias significativas, como a cessão de três das quinze datas de amistosos da seleção espanhola para as seleções regionais em 2009.

A questão é polêmica, porque a FIFA e a UEFA exigem às federações além do aval do país ao qual elas são vinculadas, a criação de uma liga nacional. Um exemplo são as Ilhas Faroe (vinculadas a Dinamarca) e que disputam amistosos e competições oficiais, além do Formuladeildin, o Campeonato Faroês de futebol. Se levadas ao pé da letra, clubes como o Barcelona, Espanyol, Athletic Bilbao, Real Sociedad, Osasuna e La Coruña (para citar os mais conhecidos) não disputariam a Liga Espanhola – na qual se enfrentam regularmente – para disputar ligas distintas, o que significaria perder receitas vultuosas relacionadas ao futebol, como cotas de TV e patrocínios, pois participariam de campeonatos regionais enfraquecidos tecnicamente. As federações sonham com algo semelhante ao que ocorre com a Grã-Bretanha, que mesmo sendo uma unidade, deixa seus integrantes disputarem competições individuais livremente com a bandeira do território a qual pertencem. É comum ver times galeses disputando ligas na Inglaterra, por exemplo, pois essas equipes optaram por disputar as ligas inglesas ao invés das galesas.

Em um tabuleiro que ultrapassa as quatro linhas, os autônomos sonham em um dia serem donos de si mesmos sem intermediários. Questões políticas, econômicas e nacionalistas entram em campo. E ao confrontar outros países, mesmo que por 90 minutos, os defensores da autonomia total sentem-se livres para manifestar todo seu orgulho e cultura diante dos olhos democráticos e liberais do futebol.

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