Déjà vu nos Spurs

29 09 2008
É pré-temporada no futebol inglês. Manchester e Liverpool gastam boa quantia em reforços de peso, o Chelsea põe o pé no freio e o Arsenal investe na juventude. Querendo se afirmar de vez na transição entre o pelotão intermediário e a elite que briga por vaga na Champions League, está o Tottenham. De boa campanha na temporada passada, a equipe gastou boa quantia em promissores reforços. Após seis rodadas, o até então promissor time de White Heart Lane se vê na zona de rebaixamento e com grandes dúvidas sobre a permanência de seu técnico para o prosseguimento da temporada. Esse cenário, baseado na situação do ex-técnico da equipe em 2007/08, Martin Jol, parece se repetir na cabeça do torcedor nesta temporada. Mas desta vez, com o promissor e competente Juande Ramos, após outra derrota na Premier League por 2-0 ante o Portsmouth.

Para esta temporada, foram investidos vultuosos 88.200.000 € até aqui. Contratações promissoras de bons destaques da temporada passada como a de Roman Pavlyuchenko (Spartak Moscou, 17.400.000 €), Vedran Corluka (Manchester City, 13.800.000 €), Luka Modric (21.000.000 €, Dínamo Zagreb), David Bentley (Blackburn Rovers, 22.000.000 €) e Gomes (PSV, 8.000.000 €) pareciam precisas para melhorar a campanha de recuperação após a demissão de Jol em outubro de 2007, decorridas dez rodadas da Premier League 2007/08. Apesar do modesto 11º lugar na última temporada, Ramos ajudou os Spurs a conquistarem a Copa da Liga Inglesa, primeiro título de expressão após nove anos em jejum.Simplesmente, a equipe não consegue encaixar um padrão de jogo e tudo conspira para o erro da equipe. Boa parte dessa má fase vêm da perda de sua eficiente dupla de ataque, já que Robbie Keane foi para o Liverpool e Berbatov, ao Manchester United. A orfandade dos ex-atacantes é notória: os Spurs estão na lanterna da Premier League – dois pontos em seis jogos, sem uma vitória sequer – e possuem o pior ataque da competição até aqui, com apenas quatro tentos anotados.

Com a tendência de atuar apenas com um atacante, o recém-chegado russo Pavlyuchenko, Juande Ramos terá de quebrar a cabeça para fazer seus meias chegarem com mais agudez e eficiência à frente. O garoto Giovani dos Santos ainda tenta chamar a bola para si, mas não vive boas jornadas, assim como Aaron Lennon – constantemente convocado para o English Team – e o promossor Luka Modric, que fez boa Eurocopa mas ainda não se adaptou ao estilo de jogo do futebol inglês. As opções de ataque estão escassas – já que é difícil colocar Bent e Pavlyuchenko juntos, pois tratam-se de atletas-referência na frente – enquanto Giovani e Frazier ainda são jovens para segurar o rojão, apesar de toda a potencialidade do mexicano.

Em White Heart Lane, todos esperam que o Déjà vu não passe de uma infeliz coincidência e que a equipe possa render um futebol correspondente às suas expectativas. Ou a cabeça do até então aclamado Juande Ramos pode ter o mesmo destino do então promissor Marton Jol – o qual havia levado os Spurs a dois quintos lugares consecutivos da Premier League: a porta de saída.





“Esterno” necessário

29 09 2008
Após quatro anos, Mancini volta à Seleção jogando bem na posição em que rendeu mais desde a sua ida ao Calcio: o meio-campo

Em tempo, Mancini figurou na lista de convocados de Dunga para a próxima rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, em outubro. Uma boa chance de desafogar a meia da equipe, que joga apenas com um atacante e centraliza a maioria de suas jogadas, já que Maicon não apóia tanto na Seleção como faz na Inter, enquanto Kléber (provavelmente o titular, pelo menos nesta primeira partida contra a Venezuela) não faz jus a mais uma convocação por viver o pior momento de sua carreira.

Comentando informalmente com alguns amigos aqui do Opinião FC antes de sua convocação, citei que faltava alguém como ele no Brasil. Diego é um armador e carrega a bola pelo centro, assim como Kaká. Ronaldinho – que já atuou pelas lados com excelência – é reserva no Milan e ainda parece mostrar um pouco de “desinteresse” em jogar bola. Júlio Baptista ainda é inexplicavelmente chamado, pois apesar da sua versatilidade, não vem mostrando regularidade e futebol diferenciado na Roma – curiosamente, contratado para suprir a lacuna deixada por Mancini, que deixou a equipe giallorossi nesta temporada – enquanto Anderson não joga como no Manchester United.

Atuando mais pelo lado esquerdo (mas também não é difícil vê-lo na direita, já que é lateral-direito de origem), Mancini se caracteriza pela velocidade, alem da habilidade de trazer a bola dos flancos para o centro, ajudando na passagem dos laterais e na movimentação dos meias e atacantes. Além da voluntariedade, Mancini sempre aparece bem para marcar gols e dar perigosos chutes de fora da área.

A surpresa de alguns comentaristas – normalmente os velhos e desatualizados, que pouco acompanham o futebol europeu – em ver Mancini ser convocado na posição que o consagrou na Roma e na qual Mourinho aposta nele na Inter é irreal. A lembrança é do voluntarioso ala que brilhou pelo Atlético/MG. No entanto, Mancini evoluiu bastante no futebol italiano, onde foi utilizado por vezes como segundo atacante na Roma de Luciano Spalletti, dada a sua habilidade, velocidade e versatilidade. O esterno (como são chamados na Itália os meias que atuam mais pelos flancos) poderá ser útil e se firmar na equipe, se Dunga o utilizar corretamente, já que consiste no único jogador do tipo no atual elenco.

Mas mesmo acertando na volta de Kaká, Mancini e Pato à Seleção, o elenco em geral ainda é motivo de critica em muitas posições. Josué e Gilberto Silva há muito não merecem mais a amarelinha enquanto Anderson é mal utilizado, Kléber vive péssima fase, Thiago Silva não lembra em nada o jogador vigoroso da boa campanha do Fluminense na Libertadores deste ano e o nome de Doni para a reserva de Júlio César continua questionável. Mas os jogos relativamente fáceis contra Venezuela e Colômbia podem dar a confiança necessária para o início da consolidação das “apostas”, como Mancini e Pato.

Goleiros
Julio César (Inter de Milão) e Doni (Roma)
Laterais
Maicon (Inter de Milão), Daniel Alves (Barcelona), Juan Maldonado (Flamengo) e Kleber (Santos)
Zagueiros
Lúcio (Bayern de Munique), Alex (Chelsea), Juan (Roma) e Thiago Silva (Fluminense)
Meio-campistas
Lucas (Liverpool), Gilberto Silva (Panathinaikos), Anderson (Manchester United), Kaká (Milan) Elano (Manchester City), Josué (Wolfsburg), Julio Baptista (Roma) e Mancini (Inter de Milão)
Atacantes
Robinho (Manchester City) Jô (Manchester City) Luis Fabiano (Sevilla) Alexandre Pato (Milan)





Despertar Colchonero

23 09 2008
Atlético vence bem o PSV jogando em Eindhoven: Prenúncio de uma boa temporada para os colchoneros?
Que Real Madrid e Barcelona são as maiores potências clubísticas espanholas ninguém contesta. Nos últimos anos, porém, vemos uma alternância nas equipes que podem dar alguma dor de cabeça à supremacia protagonizada pela rivalidade madrilenha/catalã. Pelos resultados mais recentes, podemos colocar o Valencia como terceira força desta década. São duas Ligas espanholas (2001/02 e 2003/04), uma Copa do Rei (2007/08) e dois vice-campeonatos da Champions League (1999/00 e 2000/01). A queda recente na forma e nos títulos importantes dos Ches abriram brechas para outros postulantes, como o Villarreal (semifinalista da Champions 2004/05 e vice-campeão espanhol em 2007/08) e o Sevilla (bicampeão da Copa UEFA em 2005/06 e 2006/07). Enquanto isso, o tradicional Atlético de Madrid tentava ressurgir das cinzas para fazer parte novamente do pelotão de frente da Espanha. Castigado com o descenso em 1999/00 – combalidos pela formação de elencos medícores e a crise após a comprovação de atos de corrupção de seu presidente à época, Jesús Gil y Gil, o qual comandou o Atletí por 16 anos – o clube demoraria duas temporadas para se recuperar do Infierno, que é como os torcedores definem esse tempo de ostracismo do clube no futebol espanhol.
De volta à elite, o clube sempre sonhou pela volta ao protagonismo de La Liga – a qual conquistou pela última vez em 1995/96 – já que é o terceiro maior campeão, com nove ligas. Mas esbarrava na formação de elencos medíocres ou de times que deixavam a desejar, apesar de terem algum potencial. Prova disso é que mesmo com seu maior ídolo da história recente em campo – o avante Fernando Torres – não conseguiu fazer o time progredir após o seu retorno à 1ª divisão. E na temporada passada, El Niño bateu asas em direção às libras esterlinas do futebol inglês, onde o Liverpool pagou uma fortuna para levá-lo. Coincidentemente, foi quando a equipe colchonera deu sinais de crescimento. Liderados pelo regular Maxi Rodríguez e bem comandados pelo técnico mexicano Javier Aguirre, o Atletí conseguiu chegar longe: está na vitrine européia, com a conquista da vaga para a Champions 2008/09 em virtude da quarta colocação na última liga local. O grande destaque deste retorno ao maior campeonato de clubes do mundo teve um expoente: Sérgio “Kun” Agüero, a maior jóia argentina após o surgimento de Lionel Messi. Formando ataque infernal com outro goleador, Diego Forlán, o prodígio argentino contribuiu com 20 gols na última liga, enquanto seu parceiro uruguaio anotou 16 tentos.

No entanto, pairava uma dúvida. Seria o Atlético capaz de passar por prova tão difícil na classificatória da Champions, diante do bom time do Schalke 04? Não morreria na praia mais uma vez e deixaria pairar no ar mais uma temporada como mero coadjuvante? Ao que parece, não. As boas contratações colchoneras, como a aquisição dos zagueiros Ujfalusi e Heitinga; a vinda do volante brasileiro Paulo Assunção e do promissor meia Banega; a contratação dos franceses Coupet e de Sinama-Pongolle, revelação da última liga pelo modesto Recreativo Huelva, ao marcar dez gols – mostram que, se o elenco do Atlético não é o mais forte tecnicamente, talvez seja um dos mais equilibrados e versáteis do certame espanhol. As vitórias sonoras sobre Schalke e PSV pela Champions, além do bom futebol mostrado no começo de La Liga (apesar do vacilo contra o Valladolid) mostram que a equipe dará trabalho e, no mínimo, corre por fora na disputa do título espanhol, além de prometer boa figura na Champions League. Os oito gols na Champions somados aos nove na Liga Espanhola (17GP e 2GC em 6J) mostram que o time pode peitar os grandes de frente.

A zaga é versátil, com a utilização do grego Seitaridis ou do colombiano Perea pela direita e os avanços incisivos de Pernía pela ala esquerda. Além da boa colocação e técnica do tcheco Ujfalusi, o holandês Heitinga também pode atuar tanto na zaga, quanto na lateral, assim como Perea. O meio-campo é recheado de opções. Tanto as defensivas – como Paulo Assunção, Raúl Garcia e Banega – quanto as mais ofensivas – com Maniche, Maxi Rodrigues, Simão e Luís Garcia – dão a Aguirre um leque de opções para montar o time. Além da versatilidade e o poder de transição já destacadas, a dupla Agüero-Forlán é poderosa, com a opção do jovem Pongolle sempre na manga, sem perder a qualidade e a força na frente.

Talvez ainda seja cedo para afirmar uma temporada pretensiosa ao Atlético de Madrid. Mas a equipe colchonera possui, sim, boas condições de quebrar a hegemonia vigente na Espanha. Assim como fez em 1995/96, ano de sua última glória, onde figuravam jogadores como Caminero, Simeone e Kiko.





Especial Champions League 2008/09 – Opinião FC

17 09 2008

Guia completo para a Champions League 2008/09, originalmente postados pelos eficientes amigos do Opinião FC – Thiago Barretos, Tiago César, Jota Assis e este blogueiro que vos escreve. Para acessá-lo, clique na foto acima. E esperaremos que os caminhos nos levem a uma grande final em Roma!





A ponta do iceberg?

3 09 2008
No embalo da polêmica da surpreendente transferência estratosférica de Robinho para o Manchester City, um outro assunto é recorrente: Outro mecenas aporta na Inglaterra, o árabe Sulaiman Al Fahim. Seu sonho é fazer do City um dos seus “brinquedinhos” mais bem sucedidos, assim como Roman Abramovich faz com o Chelsea há mais de cinco temporadas. Através do grupo de investidores ADUG (Abu Dhabi United Group), Fahim promete atropelar a concorrência, prometendo mundos e fundos, chegando até mesmo a tencionar a contratação do maior ídolo do rival, Cristiano Ronaldo.

O processo de “crescimento” do Man City se iniciou na temporada passada com a aquisição de ações do clube pelo bilionário Thaksin Shinawatra, outro que queria notoriedade fora de seu país natal, a Tailândia. Investiu bom montante e viu a equipe vislumbrar uma vaga na Champions League desta temporada. Mas no fim, a irregularidade e inexperiência do elenco fez com que esse projeto meteórico caísse por terra. No entanto, essa nova injeção de capital pode trazer o clube para um projeto parecido com a aquisição do Chelsea. Abramovitch assumiu um time falido, de porte médio e longe da briga pelos principais títulos. Seguidos investimentos puseram o Chelsea no foco do futebol europeu, mesmo não tendo conquistado nenhuma Champions League. Os Blues bateram na trave quatro vezes (três semis e uma final), porém Abramovitch ainda não desistiu de sua meta. Com os Citizens, o processo promete se repetir. A aquisição de Robinho por 40 milhões de euros parece só o começo para que a equipe seja um “novo paraíso azul” e seduza os principais jogadores com seu quase inesgotável capital árabe, colocando a equipe na rota dos principais times da Inglaterra, inicialmente. Os incrédulos dirão: quem quer jogar no Manchester City? E quem queria jogar no Chelsea há seis anos atrás? Ou nos campeonatos de futebol do mundo árabe, que seduzem cada vez mais jogadores mais famosos e não tão acabados para o futebol?

Após muitos times da Premier League terem quebrado devido a bolha financeira ocorrida na década de 90 (que acometeria o Leeds United mais adiante), os times passaram a operar na bolsa de valores, atitude essa que atraiu muitos investidores estrangeiros de olho no potencial do futebol inglês. A aquisição de Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Liverpool, Portsmouth, Aston Villa e agora o City por mauricinhos aficcionados por futebol ou por grandes grupos de investimento mostrou isso. Como citou David Conn, em sua coluna no site do Guardian, os times parecem cada vez mais se exibir mostrando quem tem o dono mais rico ou mesmo quem traz o jogador mais badalado.

Não estou aqui defendendo o modelo de administração do Chelsea ou de qualquer outro clube que tenha o poder concentrado nas mãos daquele que assina os cheques, fórmula essa que comprovadamente traz enormes prejuízos financeiros ao clube, que aumenta suas despesas desproporcionalmente a renda recebida por conta de maior exposição na televisão, venda de produtos oficiais e de atletas. Essa elevada aquisição e seus planos a curto prazo poderá levar o futebol inglês a inflacionar ainda mais o mercado europeu, elevando os preços pagos pelo atletas atualmente, além da estrutura que o acompanha. Mas é inevitável não pensar que a rivalidade entre City e United poderá deixar de ser uma briga Davi-Golias para ser um embate de clubes cada vez mais semelhantes – pelo menos no tocante ao poderio financeiro e de suas origens e destinos.





De pedra a vidraça

1 09 2008
De algoz a vítima. O Real Madrid experimenta a condição de ser o “marido traído” de uma novela que circula diariamente nos sensacionalistas tablóides espanhóis e ingleses: a possível transferência de Robinho ao Chelsea. Logo o Real, que forçou ao extremo a transferência de Cristiano Ronaldo e iria usar o próprio Robinho como moeda de troca. Se a diretoria merengue pregou tanto a tal liberdade para jogar onde quiser – inclusive apoiados pelas declarações infelizes de Joseph Blatter, presidente da FIFA – porque não se sensibilizar com o caso do brasileiro, o qual ainda está longe do bom futebol dos tempos de Santos e alguns momentos de Seleção Brasileira, visivelmente irritado com sua situação em Madrid?

O Real Madrid vê a janela de transferências se fechar nessa segunda-feira após acumular fracassos nas contratações de Santi Cazorla e David Villa (recentemente campeões europeus pela Espanha), além de Ronaldo, a menina dos olhos de Schuster e da diretoria. E uma eventual saída de Robinho enfraqueceria ainda mais o elenco, que trouxe apenas o meia holandês Rafael Van der Vaart para esta temporada. Mas vale a pena deixar um jogador visivelmente insatisfeito no elenco merengue – inclusive com críticas veementes de alguns de seus companheiros, como Robben?

Apesar de seu empresário Wagner Ribeiro – que tem grande parte nesse desejo de Robinho deixar Madrid rumo à Londres, assim como já o fez na época de Santos – o atacante brasileiro não deixa de ter suas razões. Relegado como moeda de troca e última opção, não há jogador que ficasse satisfeito, ainda mais com um empresário procurando clubes como Ribeiro sabe fazer bem. “Disse ao presidente, ao diretor esportivo e ao treinador que quero sair. Não vou me recusar a jogar, caso fique. Mas é responsabilidade de Schuster se ele quiser manter um jogador insatisfeito” disse o camisa dez merengue durante coletiva neste domingo (31/08), visivelmente chutando o balde com o impasse criado. O Chelsea está a espreita esperando a novela acabar, sem nada valoroso a perder. Segundo Robinho, ele até ficaria “um ano sem jogar” mostrando a sua insatisfação. Claro que ele não fará tamanha estupidez, tanto porque minaria seu espaço na Seleção e iria colidir com os interesses do Real, que investiu nele e lhe paga rigorosamente em dia.

Já a diretoria do clube mandou o atacante pagar a multa de cerca de 150 milhões de euros, algo impossível de se acontecer. Mas anteriormente, no caso da malfadada transferência de Ronaldo, o Real sequer cogitou essa possibilidade da rescisão unilateral. Como diz a cantora Pitty em sua canção “Teto de Vidro”: “quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra…” E sabemos que o teto merengue não é feito de vidro, mas sim de cristal…